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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Amor e Murta


Em dia de namorados voltamos a uma das espécies nossas preferidas e que materializa na perfeição o espírito do dia. Para quem nos segue é chover no molhado pois não é a primeira vez que a destacamos, quando tantas outras igualmente interessantes nem sequer referenciámos. Porém, como já tivemos oportunidade de escrever antes, se o sobreiro é a árvore de Portugal, a Murta poderia muito bem ser o arbusto emblemático do nosso país.

Trata-se provavelmente da planta que está na origem de mais nomes na toponomia das nossas aldeias e vilas, sendo inúmeras as declinações: Murtal, Murteira, Murtosa, Almortão, entre outras, povoam o nosso país e provam que desde há muito que não somos indiferentes a este arbusto perene de folhas aromáticas e flores delicadas que ocorre em praticamente todo o país.

É verdade que também é comum a toda a bacia do mediterrâneo e sobre ela existe um extenso património cultural construído ao longo de milhares de anos. Considerada pelos gregos e romanos como símbolo da Paz e do Amor, a murta era uma planta sagrada, dedicada a Afrodite e a Vénus, divindades nas mitologias grega e romana, respectivamente. Curiosamente, ainda hoje os ramos de murta fazem parte dos bouquets de casamento de muitas noivas um pouco por toda a Europa, e não é por acaso que o de Kate Middleton também tinha uns raminhos de uma murta plantada pela rainha Vitoria em 1845. 

Como escrevíamos acima, além da simbologia, a murta é uma planta que exala um agradável aroma limonado e possui  características lhe têm conferido múltiplas utilizações, desde medicinal, no tratamento de doenças das vias respiratórias e urinária até ao uso alimentar e condimentar - flores, bagas e folhas, verdes ou secas são facilmente incluídas na confecção de diversos pratos e grelhados. Em diversas regiões de Portugal as suas bagas – denominadas murtinhos - são ainda usadas na fabricação de licores. Noutros países ainda, é cultivada para extracção dos seus óleos essenciais, posteriormente utilizados quer pela indústrias da perfumaria e alimentar na preparação de molhos e aromatizantes.
E se ter um arbusto no jardim, nosso e ainda por cima aromático, que remete o nosso  espírito para a PAZ e o AMOR, já seria mais do que suficiente para todos a devêssemos  ter por perto e em abundância, nós acrescentamos mais duas razões: a ornamental e a ecológica. Num jardim é um arbusto sempre verde que pode ser utilizado em sebes ou isolado, que não exige cuidados de maior (prefere solos pouco ou nada calcários, mas também não excessivamente ácidos, bem drenados e sem exposição excessiva ao sol ), suportando bem as geadas e as podas. Do ponto e viste ecológico,  as suas bagas são muito apreciadas por pequenas aves que lhe agradecem o alimento numa altura em que ele começa precisamente a escassear - o  Início do Inverno. 

As nossas sementes de Myrtus communis,  colhidas em murtais do centro de Portugal, são uma boa opção para todos aqueles que pretendem começar por uma aposta segura em matéria de flora autóctone. Com uma temperatura a rondar os 16º e luz q.b. pode ser semeada em qualquer altura e a sua germinação é praticamente garantida!

Nota - O presente artigo, publicado originalmente na revista Jardins de Outubro de 2017, sintetiza, na pratica dois anteriores textos publicados neste blogue AQUI e AQUI.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Murta, dois palácios e uma amante


E à oitava espécie que revisitamos, destacamos hoje a Murta. E fazêmo-lo ma vez mais sob suspeita pois dos arbustos da nossa flora nativa é o nosso preferido. Não só por ser uma planta de inegáveis qualidades e poucas exigências, mas sobretudo por ser o exemplo perfeito de uma planta que, outrora profusamente apropriada pelos nossos antepassados, quase caiu no esquecimento, existindo hoje poucos que a consigam identificar de forma imediata.

O que não tem justificação alguma, pois a Murta encontra-se de olhos fechados. Basta ter o nariz atento ao aroma laranja/limonado das suas folhas, as quais, entre outras aplicações, substituem com sucesso as folhas de louro na aromatização dos mais variados pratos. Isto para não falar das aplicações medicinais ou das muitas utilizações que os povos do mediterrâneo deram às suas bagas - os murtinhos, na confecção de licores, por exemplo.

Este arbusto, que pode crescer até aos 3 metros e que se encontra praticamente em todo o centro e sul de Portugal, pode todavia gabar-se que mesmo não sendo conhecido se ostenta todos os dias sem o sabermos em centenas de topónimos: Murteira, Murtão, Murtosa, entre outros, são apenas alguns exemplos que se desmultiplicam seguramente em largas dezenas de localidades do nosso país. Mas isto sendo muito é apenas uma pequeníssima parte.

A Murta era, como tínhamos descoberto AQUI, uma planta sagrada para Gregos e Romanos que a plantavam junto aos templos consagrados a Vénus, simbolizando a Paz, o Amor e a constância. E se isto era transversal a toda a bacia mediterrânica também o foi por cá até bastante tarde.

Atendendo aos resultados de uma pesquisa rápida no google, é seguro afirmar que até aos anos 30 do século XVIII, a Murta ainda era foi nós um reconhecido símbolo de Amor, Pelo menos para D. João V que a D. Luísa Clara de Portugal, aia da rainha e sua amante favorita, não viu melhor cognome do que "Flor da Murta". É sabido que D. João V teve inúmeras amantes, mas a poucas terá escrito o que abaixo transcrevemos copiado da página de FB Lisboa de antigamente, e cuja foto partilhamos:
«Cantiga à Flor da Murta


Oh! Flor da Murta

Raminho de freixo,
Deixar d' amar-te
É que t' eu não deixo.



Morrer sim

Mas deixar-te não.
Oh! Flor da Murta
Amor do meu coração.



Oh! Flor da Murta

Do meu coração,
Deixar d' amar-te
Ai não deixo, não.»



(D. João V, atrib.) 

(Alice Lázaro, «Luísa Clara de Portugal - A Flor da Murta, Biografia (1702-1779)», Chiado Editora, Portugal 2012)
Uma historia apaixonante e que nos legou ainda dois palácios com o nome da Flor da Murta: Um em Lisboa, na R. dos Poços dos Negros e outro, na Terrugem- Oeiras.

 E se o móbil principal deste post  deveria ser o devender sementes de Murta, que as temos frescas e prontas a germinar, compreendemos perfeitamente que existam namorados com urgência em querer celebrar já o próximo dia 14 com uma Murta feita e sem qualquer hipótese de erro de germinação. Para isso nada como contactar com a Flor de Murta, um projecto-viveiro que também se dedica à flora autóctone de Portugal, que lhe tomou o nome e que a elegeu como a planta em promoção no mês de Fevereiro.

Em semente, ou em vaso, o importante é mesmo pois ter (pelo menos) uma Murta por perto e à mão de cheirar!

A Flor de Murta - D.Luisa Clara de Portugal
(Alice Lázaro, «Luísa Clara de Portugal - A Flor da Murta, Biografia (1702-1779)», Chiado Editora, Portugal 2012)

Adenda e correcção - Como é sabido, as "pesquisas na internet" têm os seus perigos em matéria de rigor e podem induzir em erro. E neste texto induzimos num sem o querer. Na realidade a D. Luisa Clara de Portugal não ficou conhecida por a " Flor da Murta" devido ao envolvimento amoroso com D. Joao V mas sim por antes disso ser casada com D. Jorge de Meneses, senhor da Casa de Alconchel, também conhecida como da "Flor da Murta". É essa ao que parece a origem do nome dos dois palácios que tomaram o nome da casa dos seus senhores. O seu envolvimento com D. João V, a par da sua beleza, fazem dessa coincidência com a simbologia da Murta uma história ainda mais deliciosa. Ou trágica, se considerarmos a perspectiva de D. Jorge de Meneses, traído pelo seu rei e pela sua esposa.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Paz, Amor e Murta

Se evidências faltassem de que a historia da Humanidade não é um continuo avolumar de conhecimento adquirido pelas gerações anteriores, do qual nada se perde e ao qual tudo se acrescenta, o generalizado desconhecimento que temos das plantas que nos rodeiam bastaria para começarmos a desconfiar das linhas pelas quais se tem feito o "inexorável" progresso humano.

E no meio da imensidão de plantas que hoje se encontram resumidas a "ervas" indiferenciadas, a murta é, possivelmente,  uma das que mais incompreensivelmente esquecemos. Ao ponto de hoje ignorarmos quase por completo a extensa e rica relação que com ela os nossos antepassados estabeleceram. 

Considerada pelos gregos e romanos como símbolo da Paz e do Amor, a murta era a planta consagrada a Afrodite e a Vénus, divindades nas mitologias grega e romana, respectivamente. Ainda hoje os ramos de murta fazem parte dos bouquets de casamento  de muitas noivas um pouco por toda a Europa, e não é por acaso que  o de Kate Middleton também tinha uns raminhos de uma murta plantada pela rainha Vitoria em 1845. Mas a simbologia desta planta é de tal forma rica e diversa para tantos povos do Mediterrâneo que o melhor mesmo é fazermos uma pequena pesquisa no google e deixarmo-nos surpreender pela quantidade de tradições que a ela estão associadas.

Além da simbologia, a murta é uma planta que exala um agradável  aroma a laranja e cujas características lhe têm conferido múltiplas utilizações, desde medicinal, no tratamento de doenças das vias respiratórias e urinária até ao uso alimentar e condimentar - flores, bagas e folhas, verdes ou secas são facilmente incluídas na confecção de diversos pratos e grelhados. Em diversas regiões de Portugal as suas bagas são ainda usadas na fabricação de licores e noutros países é cultivada para extracção dos seus óleos essenciais utilizados quer pela industrias de perfumaria e alimentar na preparação de molhos e aromatizantes.

Às utilizações acima, e que já não são poucas, nós acrescentamos ainda mais duas: a ornamental e a ecológica. Num jardim  é um  arbusto que pode ser utilizado em sebes ou isolado, que não exige cuidados de maior (prefere solos pouco ou nada calcários, mas também não excessivamente ácidos, bem drenados e sem exposição excessiva ao sol ), suporta bem as podas e as suas bagas são apreciadas por pequenas aves que lhe agradecem o alimento numa altura em que ele começa a escassear - o fim do Outono; Início do Inverno. De referir também que é uma planta que adapta perfeitamente à vida num vaso.

As nossas sementes de Myrtus communis,  colhidas recentemente em murtais do centro de Portugal, são uma boa opção para todos aqueles que pretendem começar por uma aposta segura em matéria de flora autóctone. Com uma temperatura  a rondar os 16º e luz q.b. pode ser semeada em qualquer altura e a sua germinação é praticamente garantida!