domingo, 10 de agosto de 2014

Bagas de Sabugueiro

Sambucus nigra

A propósito das bagas de Verão do último post, era claro para nós que haveríamos de voltar ao tema. Até porque há mais algumas bagas e respectivos arbustos que queremos evidenciar. Mas as de hoje eram, por diversas razões, prioritárias: As bagas de Sabugueiro!

Na realidade as bagas de sabugueiro são na realidade apenas um pretexto para escrevermos algumas linhas sobre uma espécie que até há alguns anos quase desconhecíamos e que hoje é uma das nossas preferidas, tais são as suas especificidades e qualidades!

E não sabendo por onde começar, começamos por admitir que em bom rigor apenas este ano observámos e colhemos bagas de Sabugueiro! Até há alguns anos atrás, Sabugueiro era para nós nome de localidade na Serra-da-Estrela. E levou alguns anos até percebermos que apesar de naturalmente se encontrarem mais no centro e norte de Portugal e junto a linhas de água, é, ainda assim, perfeitamente possível encontrá-los às portas de Lisboa e mais a sul e nem sempre em terrenos húmidos.

E só este ano é que conseguimos encontrar as suas bagas em sabugueiros carregados de fruto! E em bom tempo porque se há espécie cujas sementes tencionamos adicionar no próximo Outono ao nosso catálogo de saquetas, essa espécie é  esta!

Para começar convém dizer que o Sabugueiro é tecnicamente um arbusto que pode atingir 3 a 5 metros de altura. Porém, se for devidamente podado, pode apresentar-se também na forma de pequena árvore. De folha caduca, é dos primeiros a ganhar folhas novas no final do Inverno e na Primavera, cedo, cobre-se de cachos de flores brancas que no Verão dão lugar a generosos cachos de bagas de sabor agradável para humanos e, sobretudo, pássaros que delas se alimentam a bom ritmo!

Só pelo parágrafo acima estavam dadas as razões suficientes para resolver ter um sabugueiro no jardim ou no canto da horta. Mas as suas virtudes vão muito além disso.

Conhecido desde a antiguidade pelas suas propriedades medicinais, são inúmeras as aplicações  para as suas folhas, flores, casca do tronco e frutos. A infusão das suas flores secas tem indicações no tratamento de gripes e constipações e há quem enalteça um banho com as suas aromáticas flores frescas.

Quanto ás bagas e ao seu sumo, rico em vitaminas e antioxidantes,  estão hoje na base da cultura de sabugueiro nos municípios de Douro Sul. Uma cultura com uma importância económica crescente e no essencial orientada para a exportação com destino à Alemanha, Holanda e Dinamarca, onde o seu extracto é utilizado na fabricação de sumos, como corante ou matéria prima das indústrias alimentar e farmacêutica.

Tradicionalmente o seu sumo tinha aplicações como corante de vinho, entrando na composição do chamado vinho-a-martelo! 

E por fim, para o caso de ainda existirem leitores pouco convencidos, as suas bagas podem ser utilizadas juntamente com outros frutos vermelhos na confecção de tartes e compotas!

Nota - O sumo de sabugueiro é, sabemos nós, apreciado por outros povos europeus. Nada que nós não possamos começar a  apreciar também, embora seja de apurar com cautela a percentagem em que deve ser diluído para afastar eventuais e indesejáveis efeitos secundários! De experiência comprovada, se bebido puro, são inequívocos os efeitos laxantes! Para além das náuseas :)




sábado, 2 de agosto de 2014

Bagas de Verão

Sanguinho-das-sebes e Aderno-de-folhas-estreitas

A época das bagas por excelência é o Outono, mas a Natureza encarrega-se cedo de começar a fornecer algum alimento aos muitos seres-vivos que dela dependem. De forma orquestrada, diferentes espécies de plantas, arbustos e árvores vão amadurecendo sucessivamente os seus frutos ao longo do tempo, dando sustento e garantindo, em troca, a disseminação das suas sementes.

As que hoje vos mostramos, e que ao contrário de outras como as amoras ou as camarinhas não são por nós comestíveis, são das primeiras a aparecer no centro e sul do país. Carregadas de bagas vermelhas e pretas são, além da mais valia ecológica, arbustos com inegáveis qualidades ornamentais e paisagísticas que podem (e devem) fazer parte de qualquer jardim sustentável.

Aliás neste particular a dúvida que surge não é "se se podem utilizar" mas sim "porque é que não são mais utilizadas!".

O sanguinho-das-sebes, Rhamnus alaternus, deve o seu nome à cor do sumo dos seus frutos e que em tempos era utilizado como pigmento na industria de tinturaria. Já o aderno-de-folhas-estreitas*, ou lentisco como também é popularmente conhecido, com o nome botânico de Phillyrea angustifolia, é uma espécie aparentada com as oliveiras estando integrada na familia das Oleaceae.

Para terminar, evidencia em dois aspectos relevantes: são arbustos de folha persistente e extremamente resistentes às securas do Verão pelo que não exigem nem regas frequentes nem especiais cuidados!

* Aderno-de-folhas estreitas por "comparação"  com as do seu parente, mais largas, "Aderno-de-folhas-largas",  Phillyrea latifolia, uma pequena árvore com iguais e inegáveis qualidades. E a que voltaremos num dos nossos próximos posts.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Sementes de Portugal nas lojas A vida Portuguesa






As sementes de portugal já estão disponíveis nas lojas A vida Portuguesa! Para nós é, como é natural, um enorme motivo de orgulho. Não só porque é a concretização de uma importante etapa do nosso projecto mas sobretudo por duas outras razões: a possibilidade de estarmos ao lado do que de melhor qualidade e mais genuíno se produz em Portugal e, claro, a visibilidade que a nossa flora autóctone ganha junto de públicos cada vez mais alargados! Por tudo isso, Obrigado!


E como a equipa da Vida Portuguesa é simpática ainda publicou uma entrada sobre o nosso projecto no seu blogue e que podem ler aqui :)

Agora é só recomendarem e visitarem voçês mesmos as lojas A vida portuguesa do Porto, na Rua das Galerias de Paris, e em Lisboa, no largo do Intendente!

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Assembleias das areias

Iberis sp.

Na altura de decidirmos quais as espécies da nossa flora espontânea cujas sementes mais poderiam interessar aos que nos visitam, as Iberis surgiram sem muita dificuldade como uma das nossas preferidas. 

É um género que engloba cerca de 50 espécies que variam entre sub-arbustos e arbustos, algumas delas já com ampla utilização ornamental em jardinagem.Porém, em Portugal ocorrem espontaneamente apenas três espécies, duas delas com sub-espécies endémicas da Península Ibérica ou mesmo só de Portugal. No caso das sementes que colhemos, as Iberis procumbens subsp. procumbens, são um endemismo ibérico que em Portugal ocorre na faixa litoral entre Aveiro e Sagres. 
Apresentando-se como uma planta sub-arbustiva, as suas flores dispõem-se de forma compacta formando tufos homogéneos de de flores brancas com laivos lilazes. Além da harmonia das formas que proporciona enquanto arbusto esta planta apresenta a curiosidade de as pétalas exteriores  das suas flores serem mais compridas que as pétalas interiores.

Sendo uma planta de dunas e arribas está perfeitamente habituada aos rigores dos verões quentes e sem água e, se não lhe derem um solo ácido, adapta-se com facilidade a qualquer bordadura de jardim!

Nota - Informação mais aprofundada sobre esta espécie, em particular sobre a subespécie microcarpa, no blogue de Fernanda Nascimento, Plantas e flores do areal. Aqui.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Arqout e o Ecojardim


A Marta Leite e a Cristina Oliveira, dupla de arquitectas paisagistas da ArqOut que há já vários anos prestam especial atenção na integração das plantas autóctones nos seus projectos, lançaram mais recentemente o conceito Ecojardim, dirigido a todos os que procuram soluções de espaços verdes mais sustentáveis e promotores da biodiversidade, e que resulta do trabalho efectuado em parceria com o ISA e a Sigmetum.

Como é expectável o objectivo é que cada mais projectos inovadores possam contar com a sua contribuição profissional, mas as inúmeras ideias e sugestões que fazem no seu perfil do FaceBook - são para acompanhar de perto.

E quando se trata de fazer crescer o interesse pela nossa flora, todos as novas ideias e conceitos são bem-vindos! Nós, com infinitamente menos experiência e muito menos caminho percorrido, acreditamos que que quanto maior a disseminação das ideias certas no mundo das autóctones mais e mais pessoas se atreverão a fazer germinar sementes nativas. E que com o tempo compreendam a grande vantagem de recorrerem aos serviços profissionais da arquitectura paisagista da ArqOut - ou de outros gabinetes que, bem-vindos, surjam!


segunda-feira, 30 de junho de 2014

Florir Armamar e o jardim autóctone


(fotos de Rafael Carvalho, in www.jardimautoctone.blogspot.pt)

Para o caso de algum dos seguidores deste blogue não ter visto o jardim autóctone de Rafael Carvalho, não resistimos a publicar uma entrada sobre a candidatura do seu jardim ao concurso florir armamar publicada aqui: http://jardimautoctone.blogspot.pt/2014/06/florir-armamar-apresentacao-do-meu.html

Escusado será dizer qual a decisão que o júri deverá tomar, mas o facto é que devem ser poucos os jardins privados em Portugal que tenham levado tão bem e tão longe a utilização das espécies autóctones num jardim que se quer bonito, de baixo custo de manutenção e integrado no ecossistema.

A colecção de fotos e o texto que as acompanham merecem uma leitura atenta de todos os que cada vez mais se interessam por flora autóctone. Sobretudo daqueles que na hora de escolher ainda possam ter duvidas de quais as espécies que podem utilizar.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O S. João e os Alhos-porros!

Allium ampeloprasum

Como já vem sendo hábito, não perdemos uma oportunidade para a propósito das nossas tradições introduzirmos algumas das plantas cujas sementes dispomos em catálogo. A intenção não é apenas comercial, procura sobretudo ilustrar a forte ligação que o Homem estabeleceu ao longo dos séculos com muitas plantas atribuindo-lhe valor e significado particulares.

E como dentro de algumas horas se irá festejar em diversas localidades, nomeadamente no Porto, o S. João, aproveitamos para escrever algumas linhas sobre os alhos-porros. É certo que hoje em dia os martelos de plástico adquiriram maior visibilidade mas mais logo ainda será possivel ver muitos foliões a espanarem as inflorescências dos alhos na cara dos que passam.

Tradicionalmente o S. João, assim como, estamos em crer, os restantes, santos populares, eram festividades pagãs associadas ao solstício de Verão ao culto do sol e à celebração da fertilidade. Posteriormente assimiladas pela Igreja, que lhes atribuiu um santo, as festas não perderam todavia o seu lado ancestral. 

No caso do S. João o espírito de brincadeira  e de namoro continua bem presente na simbologia fálica atribuída ao alho-porro que os rapazes esfregavam na cara das raparigas. Por outro lado era (e é ainda) tradição as raparigas esfregarem ramos de cidreira na cara dos rapazes, simbolizando os órgão sexuais femininos.

Tradições à parte, o facto é que os alhos têm também uma valia ornamental que muitas vezes nos passa despercebida. No caso dos alhos-porro, ancestrais do alho-françês que utilizamos na cozinha, sendo das espécies nativas a que maiores proporções alcança não é difícil imaginar a sua utilização em jardins ou arranjos paisagísticos - algo que aliás é frequente admirar noutras paragens.

De salientar porém que esta não é a única espécie do género Allium com interesse ornamental. Das cerca de 20 espécies que ocorrem em Portugal, conforme nos diz a flora-on, há pelo menos mais uma dúzia que valia pena ter num jardim. Em rega são plantas que preferem solos secos e que não exigem qualquer tipo de rega pelo que os cuidados a ter são mínimos.