domingo, 15 de junho de 2014

Duas flores especiais

Nigella damascena e Aquilegia vulgaris

É um facto que a Natureza atinge graus de sofisticação e perfeição elevados e que por vezes nos surpreendemos a nós mesmos exclamando que determinada coisa quase parece uma obra de engenharia ou de arquitectura tal a elaboração. É claro que esta exclamação encerra em si uma perspectiva enviesada da realidade. De facto não é a Natureza que quase consegue alcançar o Homem, mas o Homem que por vezes quase se aproxima da perfeição da Natureza, ela sim magistral no desenho das formas de vida que apurou ao longo de milhões de anos.

Vem esta ideia a propósito de duas flores que, a titulo de exemplo, nos intrigam pela "complexidade" das suas formas e desenhos. Na maioria das flores conseguimos perceber a funcionalidade do que observamos mas nestas Nigella damascena e Aquilegia vulgaris quanto mais observamos mais ficamos intrigados com a sua elaboração.

Ambas são plantas herbáceas singelas, anuais, que uma vez floridas perdem quase todo o interesse. Por isso, tê-las num vaso ou num cantinho do jardim é sobretudo cultivar um capricho estético apurado na observação da perfeição das pequenas coisas!

Nota - curiosamente ambas as flores, de géneros distintos,  pertencem à família das Ranunculaceae. Mais informação e boas fotos sobre a Nigella aqui (Dias com árvores), sobre a Aquilegia aqui (Botânico Aprendiz...).

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Sementes de flora autóctone


Quando lançámos o projecto das sementes de portugal esta era uma das ideias que tínhamos em mente. E que conseguimos concretizar agora com a ajuda de muitos amigos que nos cederam fotos, se disponibilizaram para reverem os textos e que, claro, também deram o seu contributo com ideias e sugestões!

São cerca de 20 espécies que a partir de agora passam a estar disponíveis em diversas lojas de Norte a Sul do país, proporcionando a todos, e em especial aos que nos visitam, a a possibilidade de adquirirem sementes de algumas das espécies com maior potencial ornamental e paisagístico da nossa flora. Já falámos de todas elas aqui no nosso blogue mas gostamos tanto das novas embalagens que proximamente voltaremos a evidenciá-las.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Espigas purpura


Nepeta tuberosa

Depois do último post dedicado ao dia da espiga, deixamos hoje um pequeno apontamento para mais uma espécie com inegável valor ornamental mas que, ao contrário de noutros países, é pouco ou nada utilizada na nossa jardinagem.

Chamamos-lhe espigas purpura, porque é isso que as suas inflorescências - hastes com cerca de 60 cm a 1 metro de altura, nos fazem lembrar. O seu nome vulgar é erva-gateira, em inglês catmint.

Trata-se de uma planta perene vivaz, cujas raízes tuberosas garantem que todas as Primaveras renasce depois de quase desaparecer durante o Verão - Outono. Pertence à família das Lamiaceae a qual engloba géneros mais conhecidos como as mentas, os tomilhos ou o rosmaninho, para citar apenas alguns exemplos. 

Em Portugal é possível encontrá-la espontaneamente em solos calcários, geralmente secos e expostos aos sol, do Centro litoral, Alentejo e Algarve. Pelas pistas que a sua distribuição nos dá, poderemos dizer, sem grande margem de erro que é uma espécie muito pouco exigente seja em matéria orgânica seja de água.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Dia da espiga

Papaver rhoeas

Aproveitamos hoje a oportunidade para relembrar a celebração do dia da espiga e com isso uma das flores do campo mais emblemáticas que habitam as nossas memórias e que fazem parte de uma espiga composta a preceito.

Este dia, que outrora era celebrado extensivamente por todo o país, e que ainda assim se mantém em algumas zonas da nossa província, coincide com a quinta-feira da ascensão - um dia feriado religioso  móvel que celebra, 40 dias depois da Páscoa, a ascensão de Jesus aos céus. Porém é de acreditar que a tradição de sair aos campos e formar uma espiga com ramos de diversas plantas e flores, tem as suas raízes mais profundas nas tradições pagãs das comunidades agrícolas de todo o mediterrâneo que neste dia celebravam intensamente a sua conexão à natureza e à terra.

Independentemente da origem, a tradição consistia (e consiste) em neste dia sair pelos campos entre a 12 e as 13 horas e colher uma espiga formada por ramos das seguintes plantas: malmequeres, folhas de videira, alecrim, oliveira, espigas de cereais e, claro está, papoilas. Cada uma destas plantas/flores tinha uma simbologia particular, cabendo às papoilas o significado de amor e vida.

 Uma vez colhida a "espiga" a mesma era pendurada pelas pessoas como amuleto nas paredes da cozinha ou da sala onde deveria permanecer durante todo o ano por forma a atrair abundância, saúde e sorte.

O dia era de tal forma sagrado  e importante que em muitas regiões havia o preceito de não trabalhar para participar activamente nos festejos religiosos. A expressão "No dia da Ascensão nem os passarinhos bolem nos ninhos" é disso um reflexo.

Mas se as tradições têm caído em desuso também não é menos verdade que no que respeita às papoilas também se assiste ao se rareamento. Outrora imagem de marca de muitas searas do sul do país são hoje cada vez mais raros esse campos tingidos de vermelho. E muito por culpa dos novos herbicidas selectivos que se encarregam de eliminar todas as plantas excepto os cereais em produção. 

Daí que hoje as papoilas estejam cada vez mais confinadas a algumas bermas de estrada. Embora sejam cada vez mais utilizadas em misturas de sementes para prados floridos. A papoila é uma planta herbacea anual que uma vez semeada se propaga nos anos seguintes pelas sementes que produz.

Uma nota final por fim para o valor alimentar das suas pétalas, as quais são comestíveis podenso ser utilizadas em saladas.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Erva Besteira



É conhecida a nossa predilecção pela flora dos ambientes básicos das serras calcárias de Portugal. Com maior ou menor facilidade uma boa parte de nós repara nas árvores, arbustos ou plantas de maiores dimensões ou com povoamentos mais generalizados, mas poucos reparam em algumas "preciosidades" que por serem menos abundantes passam despercebidas.

Uma dessas plantas pelas quais nutrimos especial simpatia - ao ponto de ser para nós incompreensível porque é que nao são mais utilizadas em jardinagem, está a popularmente conhecida por Erva-besteira ou, cientificamente falando, a Helleborus foetidus.

Discreta a maior parte do ano,ainda que as suas folhas também nao sejam de desconsiderar, é na primavera que esta planta revela a sua sofisticação quando lança as suas hastes florais de cor verde clara. É uma planta que em regra de pequeno porte, perene e vivaz que no periodo de Verão tem o seu período de dormência. Abaixo deixamos um detalhe das suas "vagens" a lembrar "chocalhos" que são igualmente estéticas, pois por esta altura do ano as suas sementes já estão na sua fase final de amadurecimento. 

Dois apontamentos ainda para outros dois aspectos: 

1) Apesar de se encontrar com facilidade nas zonas calcárias do centro do país, a sua distribuição alarga-se por outros tipos de solos, eventualmente mais frescos e ácidos como testemunha o mapa de distribuição da flora-on (aqui) e o Rafael Carvalho no seu blogue jardim autóctone.

2) Ao que tudo indica trata-se de uma planta com alguma toxicidade para os animais. Isso e um cheiro tenuamente desagradável se esmagarmos as suas folhas, valeram-lhe  o epíteto de fétido no nome. O que é discutível como bem escreveu há cerca de dois anos, no seu estilo inconfundível, o Paulo Araújo nest post cuja leitura recomendamos. Aqui.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um trevo vermelho!?

Hedysarum coronarium

A primeira vez que nos deparámos com esta planta foi num dos muitos passeios que a Cristina Reboleira organiza pela zona oeste - acrescente-se, autora de um dos blogues de flora silvestre que seguimos, as minhas plantas, e a quem a génese deste projecto muito deve.

Inicialmente julgava que estava perante uma descoberta botânica na qual era o primeiro a reparar: um trevo vermelho!! Mas a Cristina refreou os ânimos. Ainda não era desta que iria latinizar o meu nome baptizando uma planta. Na realidade nem é uma herbácea nossa, mas sim trazida de outras paragens, acredita-se, por pescadores da zona Oeste. Daí que entre Peniche e S. Martinho do Porto seja possível encontrá-la em prados cobertos de vermelho onde é conhecida pela população como Sula.

A Sula, ou Hedysarum coronarium, é uma planta herbácea perene originária de países mediterrânicos como Malta, Itália, Argélia, Tunísia e Marrocos. O facto de aí ser utilizada na alimentação de animais motivou a sua vinda pois as populações locais recorrem a ela para alimentar animais domésticos.

É certo que não é uma espécie autóctone nossa mas para ela abrimos aqui uma excepção. Até porque se assilvestrou sem se tornar uma invasora. Não só é útil como forragem como apresenta três vantagens inequívocas: É muito resistente à seca; permite colorir na Primavera um pedaço do jardim com uma cor que não é muito frequente na nossa flora (imagine-se a par, por exemplo, da tremoçilha!) e é uma planta melifera: as suas flores perfumadas possuem bastante néctar  do agrado das abelhas. Aliás, nas paragens de onde é originária tem também o nome vulgar de madressilva francesa!

Mais haveria para falar desta planta que é claramente ornamental. Mas para não corrermos o risco de alguém pensar que é mais uma bizarria nossa, deixamos um link para um artigo da secção de jardinagem do Daily Telegraph. Que começa por escrever assim: Uma vez vista nunca se esquece! E é verdade. O artigo debruça-se sobre como a utilizar em jardinagem e inclui dicas de sementeira e composição. Aquihttp://www.telegraph.co.uk/gardening/howtogrow/3321418/How-to-grow-French-honeysuckle.html.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Estorno




A propósito da nossa última saída de campo pelo litoral da costa oeste, colocamos hoje a nossa atenção numa das espécies mais emblemáticas das nossas dunas, a Ammophila arenaria, também conhecida por estorno.

Esta planta, que é das primeiras a colonizar as dunas primárias formadas pela acção do vento, contribui com as suas raízes para a estabilização das areias e com isso para a fixação de outras espécies pioneiras.

Frequentemente confundida com os juncos, esta espécie pertence todavia à família das gramineas (gramineae ou Poaceae), uma das mais extensas do reino vegetal e que inclui inúmeras espécies domesticadas pelo homem para a sua alimentação como o trigo, o milho ou o arroz. Sendo sem dúvida a família do reino vegetal com maior importância económica não é também de estranhar que sejam as gramíneas a ocupar a maior área da superfície terrestre: cerca de 20%.

À parte estes factos é de referir que o uso ornamental das gramineas é em Portugal cada vez mais frequente, acompanhando as tendências paisagísticas que se observam noutros países europeus. Das diversas espécies nativas do nosso país com características e potencial ornamental, a que hoje evidenciamos destaca-se pela sua enorme resistência a solos pobres e áridos. 

Apesar de estar perfeitamente adaptada a solos arenosos - o meio onde evoluiu, não rejeita ser colocada noutros tipos de solos, desde que não excessivamente pesados ou argilosos os quais impedem o o normal desenvolvimento do seu sistema radicular.