sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um trevo vermelho!?

Hedysarum coronarium

A primeira vez que nos deparámos com esta planta foi num dos muitos passeios que a Cristina Reboleira organiza pela zona oeste - acrescente-se, autora de um dos blogues de flora silvestre que seguimos, as minhas plantas, e a quem a génese deste projecto muito deve.

Inicialmente julgava que estava perante uma descoberta botânica na qual era o primeiro a reparar: um trevo vermelho!! Mas a Cristina refreou os ânimos. Ainda não era desta que iria latinizar o meu nome baptizando uma planta. Na realidade nem é uma herbácea nossa, mas sim trazida de outras paragens, acredita-se, por pescadores da zona Oeste. Daí que entre Peniche e S. Martinho do Porto seja possível encontrá-la em prados cobertos de vermelho onde é conhecida pela população como Sula.

A Sula, ou Hedysarum coronarium, é uma planta herbácea perene originária de países mediterrânicos como Malta, Itália, Argélia, Tunísia e Marrocos. O facto de aí ser utilizada na alimentação de animais motivou a sua vinda pois as populações locais recorrem a ela para alimentar animais domésticos.

É certo que não é uma espécie autóctone nossa mas para ela abrimos aqui uma excepção. Até porque se assilvestrou sem se tornar uma invasora. Não só é útil como forragem como apresenta três vantagens inequívocas: É muito resistente à seca; permite colorir na Primavera um pedaço do jardim com uma cor que não é muito frequente na nossa flora (imagine-se a par, por exemplo, da tremoçilha!) e é uma planta melifera: as suas flores perfumadas possuem bastante néctar  do agrado das abelhas. Aliás, nas paragens de onde é originária tem também o nome vulgar de madressilva francesa!

Mais haveria para falar desta planta que é claramente ornamental. Mas para não corrermos o risco de alguém pensar que é mais uma bizarria nossa, deixamos um link para um artigo da secção de jardinagem do Daily Telegraph. Que começa por escrever assim: Uma vez vista nunca se esquece! E é verdade. O artigo debruça-se sobre como a utilizar em jardinagem e inclui dicas de sementeira e composição. Aquihttp://www.telegraph.co.uk/gardening/howtogrow/3321418/How-to-grow-French-honeysuckle.html.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Estorno




A propósito da nossa última saída de campo pelo litoral da costa oeste, colocamos hoje a nossa atenção numa das espécies mais emblemáticas das nossas dunas, a Ammophila arenaria, também conhecida por estorno.

Esta planta, que é das primeiras a colonizar as dunas primárias formadas pela acção do vento, contribui com as suas raízes para a estabilização das areias e com isso para a fixação de outras espécies pioneiras.

Frequentemente confundida com os juncos, esta espécie pertence todavia à família das gramineas (gramineae ou Poaceae), uma das mais extensas do reino vegetal e que inclui inúmeras espécies domesticadas pelo homem para a sua alimentação como o trigo, o milho ou o arroz. Sendo sem dúvida a família do reino vegetal com maior importância económica não é também de estranhar que sejam as gramíneas a ocupar a maior área da superfície terrestre: cerca de 20%.

À parte estes factos é de referir que o uso ornamental das gramineas é em Portugal cada vez mais frequente, acompanhando as tendências paisagísticas que se observam noutros países europeus. Das diversas espécies nativas do nosso país com características e potencial ornamental, a que hoje evidenciamos destaca-se pela sua enorme resistência a solos pobres e áridos. 

Apesar de estar perfeitamente adaptada a solos arenosos - o meio onde evoluiu, não rejeita ser colocada noutros tipos de solos, desde que não excessivamente pesados ou argilosos os quais impedem o o normal desenvolvimento do seu sistema radicular.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Azurea




 Anchusa azurea

Com uma foto descaradamente copiada do portal flora-on ( espero que quer a SPB quer o seu autor deixem passar o abuso), o post de hoje é sobre uma pequena preciosidade normalmente catalogada de "erva". 

Quem, como eu, for com atenção às bermas da estrada com certeza que já se deparou com ela. A tonalidade do seu azul-violeta não é vulgar e sobressai seja pela luminosidade seja pelo contraste que provoca ao aparecer no meio do verde de outras ervas e num lugar em que nunca imaginaríamos.

A Anchusa azurea, é uma herbácea perene vivaz, da familia das Boraginaceae, a mesma família da borragem e que em Portugal tem 15 géneros conforme se pode constatar aqui . Aparece normalmente "em bermas, baldios e em locais algo perturbados" e pode ser conhecida pelos nomes vulgares de buglossa, borragem-bastarda ou língua-de-vaca. Tudo nomes que não deixam antever a cor das suas flores. 

E se elas ficam fica bem num qualquer canteiro!

E ficam porque se nós não lhe damos muita atenção os ingleses, mais perspicazes, apuraram variedades para uso ornamental, como é exemplo a  variedade "Loddon Realista"que alcançou um prémio da Royal Horticultural Society.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Saída de campo - Lousã



Última saída de campo à serra da Lousã. Apesar da eucaliptização, em crescendo, e das enormes manchas de acácias, a Lousã proporciona ainda as condições para que algumas espécies de plantas se apresentem aí com boas populações.

E se não formos apenas com planos botânicos, preserva ainda alguns  espaços que merecem sempre uma visita como o castelo da Lousã e as aldeias de Xisto de que a Cerdeira e o Talasnal são bom exemplo de recuperação. Infelizmente e ao contrário do que muitas vezes as entidades oficiais querem fazer crer, a verdade é que a tão desejada dinamização da presença humana nestas paragens tarda em acontecer. E diga-se o que se disser, muito por culpa do padrão de florestação que ali, como em praticamente todo o antigo "Pinhal Interior", persiste nas monoculturas de Pinheiro, Eucalipto e eólicas. Enquanto assim for, poucos visitarão a Lousã a não ser de passagem.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Campos e bermas de tremoçilhas

Lupinus luteus e Lupinus angustifolius

Se há campos fotografados nesta altura do ano os de tremoços silvestres são desses. É claro que há outros dignos de postais como os de pampilhos amarelos de Trás-os-montes, os de papoilas do Alentejo ou os de Echium lilazes do Ribatejo, mas estes são dos que fazem parte do nosso imaginário.

Quando passamos por eles ficamos sempre intrigados a imaginar que planta será aquela de hastes floridas dispostas em andares  de forma regular e harmoniosa. A maior parte de nós nem desconfia que afinal se tratam dos parentes afastados da iguaria dos menos abonados que acompanhará muitas cervejas no Verão que se aproxima. O tremoço!

E se reparamos nos campos de tremoçilha, espontâneos ou propositadamente semeados, ficamos ainda mais surpreendidos quando descobrimos que afinal eles existem também noutras cores como o azul. Menos frequentes que os anteriores é possível no entanto depararmos-nos com eles. Os que conhecemos abundam sobretudo em Trás-os-Montes e no Alto Alentejo. A estrada Alpalhão-Castelo de Vide, além de uma alameda de freixos que promete ser daqui as uns anos ainda mais impressionante que a que liga hohe Castelo de vide a Marvão, é ladeada nas suas bermas e em toda a extensão com um consistente e abundante povoamento de tremoços azuis.

Claro que hoje já se encontram pacotes de misturas de sementes para prados floridos onde estes dois se encontram a par de outras variedades com tantas outras cores apuradas ao longo dos tempos. Porém neste caso, como quem segue este blogue já nos ouviu dizer e não nos cansamos de repetir, não é necessário procurar híbridos e variedades apuradas quando a Natureza já o fez tão bem.

Os lupinus são um género que pertence à grande família das leguminosas, Fabaceeae. Sobretudo a tremoçilha amarela é utilizada com frequência pelos agricultores para restaurar a fertilidade dos solos durante os pousios uma vez que contribui para a fixação do azoto.

Semeados na altura certa, por alturas de Outubro/Novembro, são de fácil germinação e garantem um prado de Primavera com outras cores sem qualquer trabalho pois não necessitam de qualquer tipo de rega. As chuvas de Inverno são-lhe mais do que suficientes!

Nota - Além das duas espécies aqui afloradas existem ainda em Portugal mais três espécies: de flor creme; uma outra de cor azul e, imagine-se, cor-de-rosa/roxo!
Lupinus luteus

terça-feira, 6 de maio de 2014

Rosmaninho


Lavandula stoechas e Lavandula pendunculata

Nem só de curiosidades ou plantas relativamente "desconhecidas" se faz este blogue. As de hoje são talvez as plantas que, a par do Alecrim, primeiro vêm à cabeça de todos nós quando se fala em aromáticas. E de facto não só fazem parte do nosso imaginário bucólico dos campos e serras de Portugal como são, justiça lhe seja feita, as primeiras embaixadoras na divulgação do fantástico mundo das ervas aromáticas que ao longo dos últimos 10 anos se difundiu de forma assinalável.

As que vos mostramos acima são apenas duas das cinco espécies autóctones que temos no nosso país. As outras destacaremos em  posts futuros. São, se assim quisermos chamar-lhe, os ancestrais aparentados das Lavandas que fazem dos campos do Sul de França um postal procurado por milhares de turistas nesta altura do ano. E que, diga-se, já hoje começam a fazer parte da nossa paisagem resultado de novos projectos no sector das Ervas aromáticas e medicinais que, observando o óbvio, estão a tirar partido das nossas excelentes condições naturais para este tipo de plantas.

Possivelmente existem hoje no mundo dezenas de variedades de lavandulas, com maior ou menor rendimento na produção de óleos essenciais. Assim como existem diversas variedades de jardim com florações que vão desde o branco ao lilaz passando pelo rosa. Todavia, para aqueles que não pretendem complicar o que a Natureza já faz bem naturalmente, estas duas espécies silvestres são mais do que suficientes para alegrar um jardim.

Em termos práticos o que as distingue é o pedúnculo, claramente mais elevado na pendunculata. De resto são em tudo parecidas. O óleo essencial obtido a partir das suas inflorescências tem propriedades relaxantes/calmantes e é hoje incluído nos mais diversos produtos desde ambientadores, óleos, sabões para citar alguns exemplos. 

Tem naturalmente aplicações medicinais. Como refere o mestre José Salgueiro no seu livro, uma infusão das suas inflorescências ´produz bons resultados no tratamento da tosse, bronquite catarro.

Para os que pretenderem ter rosmaninho nos seus espaços, resta acrescentar que é uma planta arbustiva que gosta de solos expostos ao sol, muito resistente aos nossos Verões e adaptada a todos os tipos de solo. Uma planta que é um clássico de qualquer jardim, de aroma intenso e um chamariz para as abelhas,como refere Rafael Carvalho neste post aqui.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Giestas e o dia das Maias

Cytisus grandiflorus - Cytisus multiflorus

A propósito do dia de amanha, que em muitas zonas do nosso país é, além do Dia do trabalhador, o Dia das Maias, publicamos hoje um post sobre giestas.

A celebração das Maias é uma tradição de origem Celta ligada aos cultos da fertilidade e da celebração do início do Verão - que para os Celtas se iniciava não em Junho mas no início do quinto mês. Assume diferentes expressões consoante a região e foi entretanto assimilada, à semelhança de tantas outras tradições pagãs, pela religião católica tendo-se hoje perdido o real significado que está na origem da celebração. 

De qualquer das formas o facto é que ainda hoje, em pleno século XXI a força da tradição se mantém, e neste dia são muitas as pessoas que, sobretudo no centro e norte de Portugal, assinalam o dia pendurando na porta das suas casas ramos de giestas e outras flores. A este propósito deixo aqui o link para um post publicado aqui pelo Dias com árvores em 2005! dando conta de que mesmo numa cidade como o Porto as pessoas adquirem ramos de giestas neste dia para colocarem à porta das casas.

Em Portugal existem, salvo erro, 6 espécies de giestas, todas elas de flores amarelas excepto a multiflorus que é de floração branca. Qualquer uma delas oferece uma significativa floração durante os meses Abril e Maio e são óbvias as suas qualidades ornamentais. Tanto que também para esta espécie é hoje vulgar encontrar à venda nos garden-centers variedades híbridas desenvolvidas para darem flores de outras cores como o vermelho ou o laranja.

Mas não era necessário. O amarelo e o branco das nossas giestas nativas é mais do que suficiente para abrilhantar qualquer jardim. No caso da Cytisus grandiflorus de flor amarela, disseminada  por praticamente todo o território, o seu porte arbustivo pode alcançar os 3 metros de altura. Já o Cytisus multiflorus, de cor branca, mais frequente no centro interior , Minho e noroeste de Portugal, o seu porte é quase sempre inferior aos dois metros.

Além do interesse ornamental, as suas flores são como é claro um chamariz para todo o tipo de insectos polinizadores. Acresce a isso que tratando-se de espécies pertencentes à família das leguminosas, são fixadoras do azoto e como tal contribuem para o restauro da fertilidade do solo.

Ambas as espécies se adaptam a diferentes tipos de solo, mesmo os mais pobres e não são exigentes de água.

Para finalizar deixamos ainda um link para o blogue Plantas e flores do areal que recentemente dedicou este post inteiramente dedicado à espécie cytisus Multiflorus. De leitura recomendada para quem quiser aprofundar os conhecimentos sobre esta espécie também conhecida como giesta das sebes.