segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Um Inverno florido



Para os mais sensíveis aos rigores do nosso clima o Inverno é aquela estação que, se pudéssemos, passávamos por cima. Menos sol, muito frio e quase sempre chuva inclemente e uma natureza em letargia ao ponto de parecer morta, só nos fazem desejar que a Primavera e sobretudo o Verão cheguem o mais depressa possível.

Mas a verdade é que a Natureza anda cá há mais tempo e não faz as coisas de forma leviana. É um facto que grande parte das árvores e arbustos aproveitam este três meses para se recolherem e fortalecerem as suas raízes, mas, de forma subtil e discreta, logo a partir de Janeiro algumas plantas são encarregues de começarem a florir de forma conjugada, preparando a apoteose do que daqui a um mês será evidente a todos nós. Tal qual os primeiros acordes de uma sinfonia, apenas com um ritmo diferente.

Esta semana, depois de quase duas a bater recordes de frio e chuva, os raios de sol de ontem vieram provar-nos isso mesmo e apresentar-nos o brilho dos campos cobertos de erva verde e da água a escorrer. E há que aproveitar as tréguas para ir verificar o que é que a Natureza anda a engendrar agora e, com alguma atenção, constatar que os alecrins, os teucriuns, os folhados e os abrunheiros-bravos, para além das amendoeiras, já estão a florir.

Mas há muitas mais flores a emergir de plantas como as calendulas, as vincas, as margaridas, o heloborus, a borragem, alguns narcisos e lirios, os malmequeres-dos-brejos ou os tojos para dar alguns exemplos. O desafio é sempre o mesmo: reparar não no que aparentemente está morto mas na vida que quer despontar. Muitas delas possuem folhas e flores comestíveis, outras possuem propriedades medicinais aromáticas ou condimentares. E todas podem ser boas soluções para levar mais um pouco de natureza para os nossos jardins que quase sempre se esquecem de alegrar no Inverno.

Por isso, hoje não falamos de nenhuma espécie em particular e apenas vos lembramos que esta é a altura perfeita para começar a notar os tons e acordes deste novo ciclo que agora ser inicia e que, esperemos, teremos o privilégio de assistir até ao seu término no começo do próximo Inverno, lá para meados de Dezembro de 2014.

PS - Como não somos os únicos a reparar que o Inverno também é florido aqui fica um link para uma entrada que a Fernanda Botelho escreveu motivada pelos raios de sol de quinta-feira passada em Sintra e que vale a pena ler.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A árvore da castidade


 Vitex agnus-castus

Embora não seja considerada uma espécie autóctone portuguesa, este arbusto que pode alcançar um porte arbóreo encontra-se relativamente disseminado pelas margens de ribeiras do Sul do País. Introduzido ou não pelo homem no nosso território, o facto é que o seu habitat-natural é o do mediterrâneo e nós, que não somos mais papistas que o papa, não resistimos a dá-la a conhecer mesmo que não seja nossa. 

Com um claro valor estético, razão pela qual é utilizada há alguns séculos como ornamental, destacam-se nesta planta as suas espigas de flores lilazes que normalmente aparecem no Verão e se prolongam até ao fim do Outono. Tem preferência por locais expostos ao sol ou meia sombra desde que em solos frescos e bem drenados.

Mas as maiores curiosidades deste arbusto prendem-se com os usos medicinais que os homens lhe foram dando desde a Antiguidade e que se verteram no seu nome cientifico. Com efeito desde a Grécia antiga que as suas folhas e bagas, foram utilizadas como um "redutor" de libido, sendo recomendadas às mulheres que quisessem acalmar os seus pensamentos. E as bagas vermelhas, depois de secas, têm também outro nome sugestivo do seu uso: pimenta de monge! Ao que parece no passado este era um dos suplementos que não poderiam faltar na dispensa de qualquer mosteiro.

Nos dias de hoje subsistem muitas duvidas cientificas sobre o real poder anti-luxuria dos princípios activos desta planta, mas são-lhe reconhecidos efeitos positivos para o tratamento de ansiedade, tensão nervosas e insónias. E como esclarece o Luís Alves aqui, uma infusão das suas folhas em banho "alivia os calores e suores típicos da menopausa". :)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

De volta às cistácias

 Halimium halimifolium

E para continuar o que tínhamos interrompido, voltamos às cistácias e a uma do género Halimium  - O Halimium halimifolium. Se o nome cientifico nos diz pouco, o nome vulgar - sargaça - ainda nos diz menos e, em certa medida, chega a ser pejorativo. Quase tanto como a injusta designação popular de mato, que é como infelizmente muitos a ele se referem. O que é injusto, mas como sabemos não há povos perfeitos. E o nosso não é excepção.

Amplamente disseminado pelas dunas estabilizadas do centro e sul de Portugal, é um arbusto que pode atingir um metro de altura e que forma grandes manchas de tons cinzentos/brancos consoante a luminosidade do dia. Só por isso este arbusto já merecia estar nos nossos jardins, pois é a cor das suas folhas de cor verde claro/cinzento que mais podem contrastar com outras tonalidades de verde. 

Como alguém explicava, sobre qual o melhor processo para escolher as plantas para um dado espaço, mais do que as flores (efémeras) o critério que preferia era sempre o da cor das folhas. São elas que perduram mais ao longo do tempo e é das diferentes tonalidades em presença que se pode criar um espaço visualmente mais dinâmico.

Mas as suas flores não são despidas de interesse. Pelo contrário são a "cereja no topo do bolo". De Abril a Junho as sargaças cobrem-se de flores amarelas com ou sem máculas nas pétalas. Efémeras porque duram um a dois dias mas logo substituídas por outras novas na manhã seguinte. 

Apreciadas por inúmeros insectos, as suas flores contribuem para o aumento da diversidade e são também um bom motivo para quem quiser juntar mais uma cor aos rosas, lilazes e brancos das roselhas
e estevas.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Cardo Maritimo

Eryngium maritimum

E para terminar a nossa série dedicada aos cardos, colocamos hoje a nossa atenção num dos oito que na nossa flora autóctone pertencem ao género Eryngium. Todos eles são plantas com interesse ornamental e a eles voltaremos mais tarde, mas por agora rematamos com este: O Eryngium maritimum ou cardo marítimo como é vulgarmente conhecido entre nós. 

Presente em todo o nosso litoral, assim como em todas as costas marítimas da Europa, o cardo marítimo está em termos científicos mais perto das umbelífereas como a tápsia ou a férula, de que a Crix nos tem falado, do que dos restantes cardos. Porém, porque por razões de sobrevivência foi desenvolvendo espinhos nas suas folhas, não se livrou do incómodo do nome. 

Muito adaptado a solos arenosos e bem drenados, pois é no ambiente das dunas primárias que é mais frequente encontrá-lo, é uma planta semi arbustiva que pode atingir cerca de 60-70 cm. Além de ser um óptimo chamariz para os insectos, e portanto contribuir para a biodiversidade de um jardim, o seu principal interesse para nós é o ornamental.

A perfeição geométrica das suas folhas, rígidas ao ponto de parecerem ter sido recortadas num outro material que não o natural, e os tons únicos de azul metálico das suas inflorescências fazem do cardo marítimo uma planta perfeita para quem possui jardins de solos arenosos e empobrecidos. Plurianual renasce todos os Outonos deixando para trás os seus ramos secos. Que não são desperdiçáveis. Com um pouco de criatividade podem perfeitamente ser valorizados em arranjos decorativos.

Por fim e porque não vale a pena reescrever o que outros já fizeram muito bem, remetemos-vos para um post da Fernanda Nascimento que no blogue Plantas e Flores do Areal nos apresenta o cardo marítimo detalhadamente!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Sementes de Portugal no Biosfera


Não fosse a atenção do Rafael Carvalho a alertar-nos de que tínhamos sido referenciados no Biosfera e passar-nos-ia totalmente ao lado! E teria sido uma pena, não só porque 5 segundos de fama sabem sempre bem, mas também porque se trata de um dos programas dedicados ao ambiente e à nossa casa comum mais consistentes e duradouros que a televisão pública portuguesa tem (ou já teve) na sua grelha. O que é uma honra. Pena é que passe num horário que não lembraria a muitos...mas isso são outras questões. O importante é que o nosso projecto não passou despercebido à Farol de Ideias e à equipa de produção do programa. Só por isso Obrigado!

Mas como, por vezes, uma boa noticia nunca vem só, ainda temos a satisfação de ver o nosso catálogo referenciado no jardim autóctone pelo Rafael Carvalho. A ele também o nosso obrigado pelo apoio.

Para quem quiser ver o programa o link é o abaixo. A referência ao sementes de Portugal aparece no 23º minuto!

http://www.faroldeideias.com/tv.php?programa=Biosfera

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Cardo Bola

Echinops strigosus
Depois de nos termos ocupado nos últimos posts com as cistácias, fazemos uma pausa nas mesmas, para vos apresentar mais dois cardos e concluir a tarefa de vos mostrar os cardos que considerávamos mais interessantes: o cardo bola e o cardo marítimo. Relembrando o que dissemos aqui, apesar de popularmente designados de cardos pertencem a géneros botânicos diferentes do género Carduus

O que abordaremos neste post é talvez o mais desconhecido da maior parte de nós, o cardo bola ou, cientificamente, Echinops strigosus. Muito frequente no Algarve, há ainda registo da sua presença nos distritos de Beja, Setúbal e Lisboa, conforme nos mostra a Flora-on. Todavia, é no Algarve que  melhor ser observa o enorme potencial ornamental desta planta. 

Algumas das suas populações, como é o caso das que existem entre Vila do Bispo e Sagres, quase chegam a parecer elaboradas instalações plásticas a tirarem partido do contraste entre a perfeição das suas inflorescências esféricas  e as diferentes alturas que as mesmas atingem.

Do género Echinops, que engloba cerca de 120 espécies, apenas ocorre em Portugal a que agora vos apresentamos. E não ficámos mal servidos. Pelo contrário, bate aos pontos e de longe as variedades de jardim, desenvolvidas noutros países e que já se vêem em alguns garden centers. As suas bolas são muito maiores e podem facilmente ser aproveitadas em arranjos florais frescos ou secos.

Não lhe são conhecidas utilizações medicinais ou culinárias, mas o interesse ornamental justifica-o plenamente. A germinação das suas sementes não requer cuidados especiais e está bem adaptado a solos pobres, bem drenados e expostos pelo que é de evitar regá-lo com frequência. É uma planta plurianual que pode atingir um metro de altura e que à semelhança de outros cardos aparenta estar seca durante o Verão para, com as primeiras chuvas de Outubro, renascer.

Nota - As fotos são da autoria de Júlio Machado do blogue Pedras, Plantas e Companhia

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Esteva

Esteva ou Chagas de Cristo (Cistus ladanifer)

De todas as cistácias a esteva ou Cistus ladanifer é talvez aquela que mais material forneceria para um livro se o quiséssemos fazer, tal é a quantidade de usos e aplicações que as diferentes civilizações e culturas do mediterrâneo lhe foram dando ao longo do tempo.

Entre nós, a esteva, também conhecida por chagas de cristo, devido às máculas bordeaux em cada uma das suas cinco pétalas, é observável um pouco por todo o país embora as grandes populações se encontrem sobretudo no Sudoeste alentejano, centro do país e Trás os montes uma vez que prefere solos ácidos sejam eles xistosos ou graníticos. Prefere mas não é requisito. Sobre solos calcários ou mais siliciosos também perfeitamente possível disfrutar das suas enormes flores logo ao início da Primavera.

O seu nome "ladanifer" tem origem na resina que as suas folhas produzem - o ládano - a qual proporciona  um aspecto brilhante às suas folhas. Esta resina, que hoje é bastante valorizada pela industria de cosmética pelas suas propriedades fixadoras de outras essências, está também na origem da sua utilização como bom material combustível pelas nossas populações locais.   

É um arbusto que pode atingir até 3 metros e deve-se reconhecer que não tem um porte compacto. Por isso, a colocar num jardim, sugere-se que se siga a norma universal do sentido estético e funcional de arrumar os móveis mais altos no fundo de um dado espaço. De preferência num conjunto de vários pés para que a mancha seja mais harmoniosa. Assim colocadas, com boa exposição solar e em solo bem drenado os resultados são garantidos: Um festim para abelhas e escaravelhos que adoram empanturrar-se do seu néctar.

Referência por fim à possibilidade de as suas pétalas poderem ser, como refere Fernanda Botelho na sua Agenda 2014 - Plantas Medicinais, Ervas silvestres e flores comestíveis - consumidas frescas ou desidratadas. Já as suas folhas e cápsulas são utilizadas como condimentares na confecção de coelho manso por lhe dar um sabor próximo do de coelho bravo.

Quanto aos usos medicinais, e ainda transcrevendo a Fernanda Botelho, o seu óleo essencial tem propriedades anticépticas podendo ser utilizado como desinfectante de feridas. Na medicina popular do sul do país é ainda considerada como indicada  para o tratamento do mau cheiro dos pés!

Nota 1 - Nem sempre as suas flores apresentam as tão características máculas nas pétalas. Se as encontrar totalmente brancas trata-se da mesma espécie.
Nota 2 - Em Portugal ocorre na costa vicentina uma subespécie - Cistus ladanifer subsp. sulcatus , que para alguns é uma espécie autónoma (Cistus palhinhae). O seu porte arbustivo mais compacto confere-lhe um ainda maior interesse ornamental.
Nota 3 - E talvez a mais importante, o blogue Plantas e flores do Areal, tem uma entrada bastante completa e detalhada sobre esta planta. Para quem quiser aprofundar e ver mais (boas) fotos de estevas é só clicar aqui. Nela, a Fernada Nascimento esclarece-nos, entre outras coisas, a diferença entre o ládano, a resina da esteva, e laudano, uma substancia de nome parecido mas completamente diferente