terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Paz, Amor e Murta

Se evidências faltassem de que a historia da Humanidade não é um continuo avolumar de conhecimento adquirido pelas gerações anteriores, do qual nada se perde e ao qual tudo se acrescenta, o generalizado desconhecimento que temos das plantas que nos rodeiam bastaria para começarmos a desconfiar das linhas pelas quais se tem feito o "inexorável" progresso humano.

E no meio da imensidão de plantas que hoje se encontram resumidas a "ervas" indiferenciadas, a murta é, possivelmente,  uma das que mais incompreensivelmente esquecemos. Ao ponto de hoje ignorarmos quase por completo a extensa e rica relação que com ela os nossos antepassados estabeleceram. 

Considerada pelos gregos e romanos como símbolo da Paz e do Amor, a murta era a planta consagrada a Afrodite e a Vénus, divindades nas mitologias grega e romana, respectivamente. Ainda hoje os ramos de murta fazem parte dos bouquets de casamento  de muitas noivas um pouco por toda a Europa, e não é por acaso que  o de Kate Middleton também tinha uns raminhos de uma murta plantada pela rainha Vitoria em 1845. Mas a simbologia desta planta é de tal forma rica e diversa para tantos povos do Mediterrâneo que o melhor mesmo é fazermos uma pequena pesquisa no google e deixarmo-nos surpreender pela quantidade de tradições que a ela estão associadas.

Além da simbologia, a murta é uma planta que exala um agradável  aroma a laranja e cujas características lhe têm conferido múltiplas utilizações, desde medicinal, no tratamento de doenças das vias respiratórias e urinária até ao uso alimentar e condimentar - flores, bagas e folhas, verdes ou secas são facilmente incluídas na confecção de diversos pratos e grelhados. Em diversas regiões de Portugal as suas bagas são ainda usadas na fabricação de licores e noutros países é cultivada para extracção dos seus óleos essenciais utilizados quer pela industrias de perfumaria e alimentar na preparação de molhos e aromatizantes.

Às utilizações acima, e que já não são poucas, nós acrescentamos ainda mais duas: a ornamental e a ecológica. Num jardim  é um  arbusto que pode ser utilizado em sebes ou isolado, que não exige cuidados de maior (prefere solos pouco ou nada calcários, mas também não excessivamente ácidos, bem drenados e sem exposição excessiva ao sol ), suporta bem as podas e as suas bagas são apreciadas por pequenas aves que lhe agradecem o alimento numa altura em que ele começa a escassear - o fim do Outono; Início do Inverno. De referir também que é uma planta que adapta perfeitamente à vida num vaso.

As nossas sementes de Myrtus communis,  colhidas recentemente em murtais do centro de Portugal, são uma boa opção para todos aqueles que pretendem começar por uma aposta segura em matéria de flora autóctone. Com uma temperatura  a rondar os 16º e luz q.b. pode ser semeada em qualquer altura e a sua germinação é praticamente garantida!

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Funcho-marítimo

Funcho-marítimo florido

É a única espécie do género Crythmum e o seu epíteto específico maritimum indica que vive exclusivamente no litoral.
Tal como na maioria das Apiáceas, ressalvando sempre as notáveis excepções como por ex. a conhecida cicuta, toda a planta é comestível, desde as suas folhas carnudas e aromáticas, aos caules e às próprias sementes, estando recentemente a ser descoberta pelas novas gerações de chefes de cozinha.
Cruas ou cozinhadas as folhas sabem levemente a funcho, talvez um pouco mais amargo e são ricas em vitamina C. 
Também do funcho-marítimo é extraído um óleo essencial que é depois usado como digestivo ou na  indústria da perfumaria.

Sementes do funcho-marítimo

É uma planta vivaz, renovando-se todos os anos sob a forma de um pequeno arbusto até 50cm de altura, de cor verde azulada e dando-se preferencialmente nas falésias rochosas do litoral. Para além de todo o nosso litoral, pode encontrar-se também no Mediterrâneo, Ilhas Canárias e costa sul e oeste da Bretanha e Irlanda, norte de África e Mar Negro.
Ao contrário da Canafrecha (Ferula communis) ou das tápsias não tem caules esculturais nem sequer exuberantes e douradas umbelas floridas. Mas em contrapartida recobre-se completamente de flores branco-amareladas, reunidas em umbelas agarradas ao corpo da flor, por volta de Junho a Agosto. 

Tolera muito bem a exposição maritima, e dá-se bem em solos pobres mas bem drenados, como os arenosos - só não gosta de sombra.

É por tudo isto fortemente recomendável para Jardins do Litoral sujeitos a condições adversas como os constantes ventos e maresias.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Sementeiras de Outono com a Sigmetum


 Antes que o Outono acabe, não resistimos a deitar algumas sementes à terra e germinar algumas sementes das espécies que vos temos vindo a mostrar.
Aproveitámos a época de sementeiras da Sigmetum - uma empresa portuguesa  pioneira na experimentação/produção de flora autóctone, que há já alguns anos trabalha em projectos de paisagismo e requalificação ambiental - e  estivemos na passada  sexta feira no viveiro da Tapada da Ajuda em Lisboa onde, com a ajuda da sua equipa, preparámos quatro tabuleiros de germinação.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Dedaleiras

Digitalis purpurea subsp purpurea

Até ao momento publicámos neste blogue postagens sobre duas "famílias de plantas" que consideramos terem um claro interesse ornamental e ecológico para os nossos jardins. Estas famílias - "cardos" e apiáceas (de referir uma vez mais que os cardos não são uma verdadeira família em termos botânicos, mas uma agregação popular) estão longe de estar esgotadas e futuramente voltaremos a outras espécies em que apostamos de olhos fechados (ou quase fechados porque não resistimos a vê-las!).

Porém, como há muitas mais espécies e famílias a quem devemos atenção, começaremos hoje a diversificar o nosso olhar introduzindo duas novas famílias: as Plantaginaceae e as Scrophulariaceae. Colocando as designações e questões botânicas de lado, resumimos apenas o essencial:  são duas famílias com diversos géneros de espécies que todos nós  na realidade já vimos algumas vezes e às quais não ficámos de certeza indiferentes tais são as suas cores e formas.

Uma das mais vulgares e conhecidas é a Dedaleira, cujo nome cientifico Digitalis purpurea  subsp purpurea, faz jus à forma de dedal das suas flores. Mas não é o único nome vulgar pelo qual é conhecida - em algumas regiões de Portugal chamam-lhe "sininhos" e provavelmente terá outros nomes tão curiosos quanto a imaginação dos que a observaram e admiraram ao ponto de terem de  lhes dar um nome. Em Inglaterra por exemplo as plantas do género Digitalis são apelidadas, com algum sentido de humor, claro! de Foxgloves (que traduzindo significa simplesmente "luvas de raposa"!)

Das cerca de 20 espécies de Digitalis que existem nas regiões temperadas da Europa/ Asia e Norte de Africa, calharam a Portugal três, sendo a Digitalis purpurea de distribuição generalizada no nosso território (* ver nota).

É claro que nos nossos garden centers começa já a ser possível encontrar alguma Dedaleiras, vistosas e de diferentes cores, normalmente variedades e cultivares aprimoradas noutros países onde gerações de jardineiros apuraram novas variações. Mas não há necessidade de aperfeiçoar em laboratório o que a nossa Natureza já desenvolveu tão bem e que, no nosso caso, acrescentam a garantia de estarem perfeitamente adaptadas às características e rigores do nosso solo e clima.

Com preferência por solos frescos e pouco expostos  ao sol é uma planta bianual em que as hastes carregadas de "dedais" emergem no segundo ano para satisfação de abelhas e outros e outros insectos que em troca do néctar e do pólen se encarregam da sua polinização.

Extremamente fácil de semear, não requer cuidados especiais e pode facilmente ser semeada com sucesso. Como não necessita solos profundos é uma planta que se desenvolve perfeitamente em vaso podendo embelezar com sucesso qualquer varanda.

De notar que é uma planta cujas partes  - folhas, caule raiz e sementes são tóxicas, possuindo um composto químico que hoje é amplamente utilizado pela Industria farmacêutica. A este propósito e fazendo fé em Jekka McVicar (1), foi no séc XVIII que um médico cientista inglês - William Withering - descobriu pela primeira vez a utilidade desta planta no tratamento de doenças cardíacas. Nada aliás que o "povo" não soubesse já pois a sua utilização em doses certas e acompanhadas por alguém  experiente faz parte da nossa sabedoria popular.

Por fim e porque a foto acima apenas permite um vislumbre da incrível beleza das dedaleiras, deixamos o link para o flora on onde muitas e excelentes fotografias nos mostram todo o esplendor que esta planta pode ter.

* Na edição inicial deste artigo escreveu-se, erradamente, que a Digitalis purpurea subsp. purpurea era endémica de Portugal. Com efeito ocorre de forma forma generalizada quer em Portugal quer em outros países da bacia do mediterrânio. A subsp. que efectivamente é endémica de Portugal, e de distribuição muito mais restrita, é a Digitalis purpurea subsp. amandina, conforme  se pode confirmar aqui na flora on. Pelo erro, as nossas desculpas.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

As Tápsias

Ainda na família das Apiáceas/Umbelíferas, existem várias Tápsias que podemos encontrar em Portugal, mas queremos sublinhar duas pela sua dimensão e pela floração mais exuberante. São elas a Thapsia villosa ou Turbit-da-terra e a Thapsia transtagana.

Turbit-da-terra ou tápsia (Thapsia villosa)

O turbit-da-terra pode ser encontrado por todo o país em clareiras de bosques, taludes e à beira dos caminhos. Já a Thapsia transtagana, está referenciada na metade sul/interior de Potugal e ambas distribuem-se pela parte mais a sul da Peninsula Ibérica, sul de França e NO de África, ou seja, em volta do Mediterrâneo.

Muito semelhantes com a anterior Canafrecha (Ferula communis), as Thapsia são de menores dimensões mas de encanto semelhante. 
O turbit-da-terra, por exemplo, tem a umbela menor mas mais densa e a sua folhagem deixa de ser plumosa para ser rendada, fazendo lembrar as frondes de um feto.

São plantas herbáceas e vivazes pelo que, mesmo perdendo os seus caules florais, as gemas de renovo mantêm-se ao nível do solo, muitas vezes envolvidas pelas  folhas basais em roseta e "revivem" na primavera seguinte. 
Florescem de Abril a Julho, sendo das primeiras umbelíferas a dar flor. E é pela sua floração de um amarelo intenso e brilhante que recomendamos o seu uso como ornamental, pela introdução de 'luminosidade' no meio das outras plantas. 
Preferem solos ácidos, pobres em nitrogénio e não gostam de sombra pelo que podem ser uma boa solução para "aqueles locais difíceis"...
No verão as respectivas umbelas de sementes ficam assim:
                               Umbela da Thapsia villosa             Umbela da Thapsia transtagana

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Cardo Penteador



Menos conhecido que os anteriores não deixa porém de dar nas vistas. Poucos já o conhecem como cardo penteador, mas este era o nome vulgar dado aos Dipsacus - depois de secas, as inflorescências eram utilizadas para cardar a lã.

Em Portugal ocorrem duas espécies de Dipsacus: Dipsacus comosus  e Dipsacus fullonum. A distinção entre elas não é imediata e nem é tarefa fácil. Em ambos os casos as inflorescências são idênticas e com interesse para um jardim. Não só pelos insectos que atraem durante a primavera, que não resistem às suas flores rosa/purpura,  mas também pela sua inegável beleza geométrica.

 Mas esta planta tem mais alguns aproveitamentos possíveis. As suas sementes são bastante apreciadas por pequenos pássaros e as inflorescências, uma vez secas, podem ser utilizadas em pequenos arranjos decorativos sem grandes esforços de imaginação.

Nativa do Sul da Europa, Ásia e Norte de África é considerada invasora em alguns regiões dos Estados unidos. Além da  sua beleza terá certamente contribuído para que fosse levada da Europa o facto de aí ser considerada uma planta medicinal. As suas raízes maceradas em álcool são utilizadas como tonificante das inflamações de músculos e articulações.

Curiosamente do lado de cá do atlântico são outras as suas aplicações medicinais. Recorrendo ao conhecimento do mestre José Salgueiro (1), é uma planta considerada "útil em doenças da pele, tais como acne, eczema e outras" sendo a sua raiz cozida "diurética, sudorífica e aperitiva", entre outras possibilidades!

De referir por fim que é uma planta pouco exigente, de solos e água, e que é bianual florescendo no segundo ano. Porém, como produz sementes com alguma abundância é quase certo que algumas germinarão no ano seguinte possibilitando a sua permanência no jardim.

1 - Ervas, usos e saberes - Plantas medicinais no Alentejo e outros produtos naturais

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A canafrecha

O que mais nos atrai nas plantas?
Canafrecha - Ferula communis     (foto: Wikipédia)

A nós e à maioria dos animais, atrai-nos basicamente a sua capacidade de fornecer alimento. Quer sob a forma de frutos, de flores fornecedoras de néctar, ou da sua folhagem ou raízes. Só nós os humanos, no entanto, nos damos ao luxo de lhes ver, apreciar  e poder “brincar” com o lado estético da sua forma.

As Umbelíferas ou Apiáceas, são ricas nessa faceta das suas espécies.
Hoje apresentamos o caso indiscutível de uma das Umbelíferas que pode alcançar maiores dimensões e que podemos encontrar em Portugal.
A canafrecha ou Ferula communis, encontra-se normalmente à beira de caminhos, taludes e orlas de matos. Sendo nativa da região mediterrânica, dá-se bem em climas áridos e com preferência por solos de origem calcária.
De porte vigoroso, as suas grandes folhas são tão finamente divididas que têm um aspeto plumoso, conferindo-lhes leveza apesar da dimensão ( as suas folhas basais podem alcançar 1m de comprimento). Já o seu escapo floral pode elevar-se desde os 2,5 aos 4 metros de altura, encimado por uma grande umbela de flores amarelas, no verão.

É esta a sua característica notável: é uma planta arquitetural com interesse em jardins informais ou em canteiros de flores. Jardins de clima mediterrânico, jardins mais ou menos silvestres ficam valorizados pelo seu porte colunar e  ao mesmo tempo, a “leveza” das suas folhas contrasta, valorizando a forma das plantas vizinhas.