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domingo, 26 de julho de 2015

Viúvas, belas e discretas


Depois de quase um mês sem partilharmos o quer que seja é mais dificil recomeçar. Por um lado o número de coisas que gostariamos de publicar aumenta e acumula-se mas, em direcção inversa, sabemos que de alguma forma se interrompeu um fluxo. E sem justificação plausível ou que interesse a quem nos segue, sucedem-se os dias sem que consigamos quebrar a ausência. 

O que nos vale é que em matéria de flora autóctone existem sempre bons assuntos para voltarmos a publicar. É sabido que no nosso território continental estamos numa altura em que já não são muitas as espécies a florir: as temperaturas e a disponibilidade de água encaminham a grande maioria das espécies para o fazer durante o fim do Inverno e a Primavera. Essa é, provavelmente e apenas por dedução lógica nossa, uma das razões da utilização de espécies de outras latitudes nos nossos jardins e varandas: a sua floração nos meses de Julho e Agosto. E como sabemos num garden -center o que se vende bem são as espécies que garantem exuberante florações neste meses mais secos.

Mas ainda assim há algumas espécies nativas que florescem mais tarde que as restantes. Uma delas e que colhe a nossa admiração é uma planta discreta, relativamente rara, que tem preferência por lugares de sombra e alguma humidade. Conhecidas como viúvas é possível dar por elas nos muros de Sintra, bem como nos taludes de algumas estradas na região centro e Norte - Litoral. Depois, do Porto para cima, no Minho e na Galiza, são várias os sítios em que com alguma atenção se conseguem vislumbrar facilmente os mantos lilazes das suas inflorescências  em forma de umbela.  

É certo que ja não em Portugal, mas é ainda nos muros do centro histórico de Santiago de Compostela e da própria catedral, sobretudo nos que estão orientados a norte, que é possível encontrar algumas das populações mais significativas desta planta e onde são claras as suas inegaveis qualidades ornamentais.

Curiosamente estas viúvas, cujo nome botânico é Trachelium caeruleum, pertence á famíla Campanulaceae, a mesma família a que pertencem os botões-azuis que referenciámos na nossa ultima entrada e que também são uma espécie a ter debaixo de olho.

Para terminar deixamos aqui o link para a entrada que Francisco Clamote escreveu sobre esta espécie e onde, além de informação adicional, é possível encontrar mais e melhores fotos.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Reconstituir afectos em Castro Daire



Aqui há uns tempos numa palestra dada na Festa da Primavera do Jardim Botânico da Ajuda, Lisboa, o Antonio Romano, do projecto Eva Dream - Florir Portugal, teve oportunidade de voltar a repetir pela enésima vez  a sua tese, simples e óbvia, de que os tempos dificeis que hoje atravessamos só serão verdadeiramente ultrapassados quando voltarmos, sem vergonha nem complexos, aos afectos.

Quase que parece pueril de tão simples. Mas não é. São mesmo os afectos, a força desmedida e avassaladora do sonho. que encerram a única força capaz de nos devolver uma brisa no rosto! 

E foi essa a ideia que sem estarmos à espera voltámos a ouvir, mas desta vez da boca de Albino Poças, o principal impusionador da recriação da "última rota de transumância" realizada no fim de semana passado em Castro Daire: O que ali se fez não foi uma recriação histórica. Nada disso. Foi, isso sim, uma emocionante e magistral reconstituição de afectos.

Como em tudo o que brilha, podemos olhar a iniciativa de Castro Daire de muitas perspectivas. uma forma promover o seu território e a serra de montemuro, de atrair turistas, de fortalecer a auto-estima da população que ainda resta, de animar as suas festas de S. Pedro, de mostrar algo que as televisões possam usar para dizer ao mundo de como era "antigamente".  Todas elas são verdade e quase todas válidas. Mas a melhor, a que vale mesmo a pena reter, foi dada pela população que recebeu com palmas a entrada dos rebanhos na cidade Acompanhadoselos pastores dos rebanhos de hoje e pelos mesmos antigos pastores da base da Serra da Estrela que há cerca de 15 anos o fizeram pela última vez em busca dos prados de Montemuro e que, sabendo da recriação, não quiseram faltar.


É verdade. que a economia e o passar dos tempos se encarregaram de tornar obsoletas e impraticáveis as seculares rotas de  transumância que existiram no nosso país. Mas recriá-las da forma como se fez este fim de semana em Castro Daire, está muito longe de ser um teatrinho inodoro para passar nas televisões. O que ali se viu foi mesmo gente a reconstituir-se orgulhosamente!

Dito isto, que era o que de mais importante havia a reter, não esquecemos que este é, apesar de tudo, um projecto centrado na flora nativa do nosso território. Até porque uma das razões de termos participado na actividade da Nómadas, foi a de ficarmos a conhecer a flora daquela região pelas veredas de antigos pastores.

O percurso, corresponde na prática e fielmente aos troços percorridos nos dois últimos dias, dos seis  que todos os anos milhares de ovelhas e cabras percorriam guiadas por pastores e cães serra da estrela. È um percurso marcado por diferentes espaços bio-climáticos, o que é o mesmo que dizer, por uma flora bastante diversificada, A começar nas gramíneas do planalto beirão e a acabar nas orquídeas em flor dos lameiros ainda encharcados das vertentes de Montemuro,

Mas a planta que destacamos, que mais nos acompanhou ao longo do percurso, e uma das nossas favoritas há ja bastante tempo, é a que dá pelo nome vulgar de botão-azul ou, se preferirem, Jasione montana. Olha-se e volta-se a olhar à procura de um defeito que justifique a ausência destas flores da nossa jardinagem e não conseguimos. Vulgar em todo o território nacional, indiferente ao tipo de solo, apenas pede que não a exponham em demasia ao sol. O que é que é mais preciso?

Para nós é, indiscutivelmente e a menos que nos convençam do contrário, uma planta perfeita para voltar a sonhar!