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segunda-feira, 29 de julho de 2019

Homenagem ao Mestre José Salgueiro


A nossa homenagem e o nosso Obrigado ao mestre José Salgueiro cujo corpo faleceu ontem dia 28 de Julho! O sopro vital que o animou durante mais de 100 anos não morreu e dará certamente lugar a outras formas e outros feitios aqui ou noutro lugar qualquer. Mas, mesmo que assim não fosse, ficava a certeza de que a energia, amor e generosidade com que viveu a sua longa vida continuarão a inspirar todos aqueles ( e foram imensos) que tiveram o privilégio de o conhecer. Um espírito assim, fecundo, nunca morre! Resta-nos também a enorme satisfação de ter sido amplamente homenageado em vida e de nos últimos 20 anos, muito pela mão da Marca -Associação Desenvolvimento Local, o seu saber e experiência terem sido devidamente salvaguardados para o Futuro!

Nota - Evidentemente obra do acaso, mas é de anotar que em Portugal 28 de Julho é o Dia dedicado à conservação da Natureza!

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Verão: Tempo de Colher e Preparar


Às 16h54 minutos de hoje assinala-se o inicio oficial do Verão no hemisfério Norte. Nesse momento, em que ocorre o  Solstício, o nosso planeta, na órbita que percorre ao longo do ano em torno do sol, receberá a luz solar que incide sobre a linha do equador com a máxima declinação. O que na prática será percebido por nós como o ponto em que o Sol atingirá a altura máxima, proporcionando em consequência o dia com a maior duração do ano: cerca de 14h53m , quase 15 horas!

Curiosamente, apesar de associarmos o Verão aos dias longos, a realidade é que a partir de hoje a duração dos dias irá diminuir, todos os dias!, um bocadinho até que igualará a duração da noite daqui a 3 meses em 23 de Setembro, momento que o dia e a noite terão a duração de 12 horas (Equinócio!). 

Muitas das festas populares de Junho, como os Santos e sobretudo o S. João, são na realidade festas ancestrais de celebração das colheitas, que normalmente se faziam e fazem por estas alturas da trajectória em volta do Sol. É um facto que hoje em dia, em que a grande maior parte de nós vive em ambiente urbano e desempenha actividades que não relacionam com a agricultura, temos tendência a pensar que o Verão é apenas a melhor altura de ir à praia, passear e descansar. Porém, sendo certo que também o é, o Verão é sobretudo o tempo para colher o que se semeou desde o Outono. E, acto continuo, começar a preparar o reinicio do próximo ciclo que será possível a partir do próximo Outono. A fábula da formiga e da cigarra atesta isso mesmo- pode-se descansar e tocar guitarra mas convém não esquecer que o Verão é estação de trabalho árduo!

E para nós será isso mesmo: A estação das colheitas em que já estamos a colher as sementes das espécies mais emblemáticas da nossa flora que poderão ser semeadas a partir de Outubro! Daí que nestes próximos 3 meses, mais do que falar em semear, iremos partilhar e colocar a nossa atenção nas sementes!

Não se pense porém que agora a Natureza só tem sementes para colher! Os seus ritmos apurados não permitem "colocar todos os ovos no mesmo cesto" e continuará a ser possível usufruir da beleza de muitas espécies que se foram programado para florir no Verão. Serão em menor numero, mas existem! Também iremos partilhar sobre elas. Seja nas zonas litorais da costa, seja nas zonas húmidas, há espécies incríveis que prolongarão a Primavera até ao final de Agosto! 

Na realidade, apesar de cada estação ter uma tónica dominante, se analisarmos com atenção em todas elas podemos observar sinais das restantes. No limite há tempo para Semear, Descansar, Usufruir e Colher em todas elas. E se analisarmos com mais detalhe o mesmo podemos observar na duração de um dia qualquer, seja ele de Primavera, de Verão de Outono ou de Inverno e o importante é perceber a tónica de cada momento para que os dias, meses, estações e anos sejam vividos da forma harmoniosa que todos ambicionamos!

A todos os que nos seguem os votos de um bom Verão: A descansar, a Usufruir mas sobretudo a Colher pensando já em Semear!



domingo, 2 de junho de 2019

Preservar um bosque perfeito em Coimbra - Campanha de angariação de fundos




Nas Sementes de Portugal passamos uma boa parte do tempo a promover as muitas potencialidades do uso da flora nativa em jardins mais sustentáveis e em bosques com mais biodiversidade. Mas quando tudo isso já existe, apurado ao longo dos tempos pela Natureza, disponível e em equilíbrio, a MELHOR E ÚNICA COISA A FAZER É....PRESERVAR! E é isso que a MilVoz - Associação de Protecção e Conservação da Natureza, se propõe fazer: Preservar um Bosque perfeito que já existe nos arredores de Coimbra, adquirindo-o, e a partir dele expandir o seu ecossistema. A campanha de angariação de fundos está em curso e dos 3000 Euros necessários já se angariou 42%. Basta seguir o link - https://ppl.pt/node/663786 e contribuir com o que se puder.

Nota 1 - No nosso país, onde os serviços responsáveis consideram que 95% do território é apto para a instalação da monocultura do Eucalipto, a existência de micro-reservas de iniciativa privada assume uma importância fundamental e crescente para preservar o pouco que ainda resta. No futuro, seja por obsolescência da indústria do Eucalipto, seja pelas alterações climáticas, será a partir delas que imensas áreas degradadas e empobrecidas de território poderão ser repovoadas com espécies nativas. Já existem algumas, como as do Projeto das 100.000 árvores na Área Metropolitana do Porto, do Cabeço Santo ou da Montis, mas são uma gota de água no imenso território que vai do rio Lima ao Algarve. A sua multiplicação será sempre a melhor notícia!

Nota 2 - Assinala-se hoje o dia da Espiga, uma tradição que fecha com chave de ouro um vibrante e glorioso mês de Maio em que a Natureza voltou a não falhar. Um dia outrora importantíssimo, de descanso obrigatório, em que num ramo de folhas de videira, malmequeres, espigas, oliveira e alecrim se renovava a esperança de que nunca faltasse alimento. E Hoje, mais que um simbólico ramo de dia da espiga, é possível contribuir para que algo de muito concreto possa ser feito! Aqui: https://ppl.pt/node/663786

(texto inicialmente publicado no FB dia 20/5/2019)

quinta-feira, 9 de maio de 2019

As sementes de Portugal estão no Cromeleque dos Almendres


Até 1964, ano em que Henrique Leonor Pina (1930-2018) o identifica e lhe reconhece a importância (https://www.facebook.com/Prof.Galopim/posts/1833635956942918) o recinto megalítico dos Almendres era um amontoado de pedras graníticas coberto de mato, conhecido peloss pastores locais como o Alto das Pedras Talhas.

Hoje, pouco mais de 50 anos passados, apesar dos muitos enigmas que ainda encerra, as investigações efectuadas nos anos 80 e 90 permitem-nos afirmar agora com segurança que é um dos mais importantes e antigos  conjuntos megalíticos da Europa-cujo Dia, curiosamente, se assinala hoje, dia 9 de Maio! Uma construção se iniciou há cerca de 7500 anos atrás, quando os nossos ancestrais se começaram a estabelecer em comunidades agro-pastoris e que ali se reuniam para celebrar em comunidade eventos maiores como os solstícios e os equinócios. Se quisermos ser justos, Almendres é verdadeiramente uma das primeiras catedrais do Ocidente! De Engenharia rudimentar, se comparada com a dos dias de hoje, mas com o mesmo propósito: a de construir um espaço de relação com o transcendente.

Para termos uma ideia da importância e antiguidade deste local, Stonehenge , um dos monumentos ingleses mais conhecidos no mundo, tem apenas 3000 anos. É certo também que há 7500 anos o Egipto já construia pirâmides e alcançava  níveis de sofisticação inegavelmente mais avançados. Porém, para nós e para a Europa no seu todo, estão ali as raízes do processo civilizacional que,com muitas outras voltas, desaguou nos dias de hoje e do qual hoje somos, tenhamos consciência disso ou não, os herdeiros directos.

É um facto que expressões como "megaliticos", "menires", "cromeleques"e "antas"  não são das mais amigas do conhecimento geral. O que para muitos só ajuda a justificar o desinteresse e a resumir em 3 minutos aquele locais, outrora sagrados e plenos de simbolismo, a um conjunto de pedras sem nada de mais, eventualmente construído por extra-terrestres. O que é evidentemente uma pena pela pobreza a que conduz quem assim pensa.

Alterar essa pobre percepção de muitos é pois o desafio dos dias de hoje. E não há assim muitas maneiras de o fazer com sucesso. Uma de que gostamos é a de reconhecer e que aquilo foi feito por gente como nós e da qual descendemos. Avós de carne e osso, desconhecidos de  há 375 gerações atrás, que não sabendo metade do que sabemos hoje, com muito menos recursos do que nós e que eram velhos doentes aos 40 anos. Imaginar que sonhos, medos e paixões os moviam. E que apesar das enormes dificuldades de sobrevivência,  se relacionavam com os elementos, com a Natureza, com o Sol, As Luas, As Plantas, a Noite e o Dia. Atribuindo-lhe significado e  dedicando-lhe energias conjuntas para arrastar e erigir pedras de enormes dimensões. Para si e para os que viessem a seguir, pois sabiam de fonte segura que também morreriam e um dia deixariam com tristeza e lamentos esta vida. 

A Outra maneira incomensuravelmente mais trabalhosa mas muito mais eficaz, é fazer o que o Mário Carvalho e o João Pinto fizeram em Guadalupe, Évora: Construir o Centro Interpretativo dos Almendres - Turismo e Natureza. Um espaço que abriu recentemente e que preenche de forma TOTAL a enorme lacuna que até aqui existia. TOTAL porque a partir de um espaço com arquitectura e design irrepreensíveis descomplicam o tema e oferecem a todos os visitantes a possibilidade de compreender os valores mais importantes daqueles lugares : o património construído, a fauna e a flora do montado- o sistema de exploração agro-florestal do mundo! Com possibilidade de visitas e percursos guiados; e um parque de merendas onde alem de mesas para pic-nics se podem ver 12 completos painéis informativos de grandes dimensões.

Pode-se sempre dizer que algo assim vem tarde. Vem! Mas vem muito bem feito. E para nós é um orgulho enorme estarmos junto deste projecto desde o seu primeiro momento, com uma selecção das espécies mais emblemáticas do montado. De hoje e de há 7500 anos atrás! Se Maio é mês de usufruto e celebração, a melhor e única maneira de celebrar e usufruir Almendres, bem como a vibrante Natureza que o rodeia é só uma: visitá-lo, assim que for possível!

Stonehenge e os ingleses que nos perdoem, muito obrigado pela inspiração, mas desta vez foram largamente superados!

Nota final - Almendres, O centro interpretativo, O espaço em volta ... têm tudo para ser um programa perfeito. Ou quase perfeito, sendo que o quase que falta  se podia resolver com facilidade: restaurar o estradão, em péssimas condições, que liga o centro interpretativo ao cromeleque. Deduzimos que possivelmente por ser responsabilidade driblada em modo pig-pong entre administrações locais e central. Os nossos votos de que nelas alguém tenha a visão e capacidade para perceber o enorme erro que é não investir agora ali! Poderá ser caro, mas será com toda a certeza menos oneroso do que construir um cromeleque de raíz :-)


domingo, 21 de abril de 2019

Jardins Perfeitos


Jardins perfeitos. 

Têm certamente muitas flores, arbustos, sub arbustos, algumas árvores. E mais flores. Uns caminhos e uns bancos pelo menos. Mas só será mesmo um jardim perfeito o que também tiver outras formas de vida a usufruí-lo. Muitas minhocas e outras larvas. Caracóis e lesmas. Formigas e repteis. Sapos e Ouriços-cacheiros. abelhas e milhares de outros insectos. Rãs, relas tritões. Uma ou outra toupeira, ratos, cobras e um sem número de pássaros. Um jardim sem eles pode ser um jardim, mas não é perfeito nem a sério! 

Por isso, e apesar de nas Sementes de Portugal estarmos focados em tudo o que pode ser feito com flora nativa para que um jardim seja vez mais perfeito, relembramos que as plantas são apenas uma pequena parte do prazer! 

Para celebrarmos árvores, flores e o canto dos pássaros que tantos gostamos, temos urgentemente de aprender também a gostar de vermes. E a amar os insectos. A maior parte deles nem chega a picar e são eles que além de polinizarem as flores, constituem o alimento de quase todas as outras formas de vida que acima, sem pestanejar, dissemos gostar. 

Temos de aprender a tolerar alguns dissabores e a perceber que nesta terra, e num jardim em particular, não há uns sem os outros. Herbicidas, pesticidas, roças prematuras, são, na generalidade dos casos, desnecessárias. 

São tristes e mesquinhos ecocídios, feitos de forma inconsciente umas vezes, ao abrigo cobarde da lei outras. E que apenas impedem a existência a outros seres vivos que, por acaso, nem querem saber quem somos. 

Nestes dias perfeitos de Primavera, a única coisas que nos é pedido para fazer é simplesmente uma que não dá trabalho e não custa nada: USUFRUIR!! Mas se não formos capazes disso, podemos sempre seguir caminho e deixar estar em paz todos os outros que usufruem dos muitos jardins perfeitos que nos rodeiam!




terça-feira, 16 de abril de 2019

E PORQUE NÃO!? - Conferência Internacional de Primavera em Évora


Uma semana depois do seu fim, na passada segunda-feira dia 8 de Abril, partilhamos o essencial daquele que foi inequívoca e muito provavelmente o evento mais relevante em matéria de jardinagem sustentável que se realizou este ano em Portugal: A Conferência Internacional de Primavera organizada pela Associação de plantas e jardins em climas mediterrânicos de Portugal, em Évora entre os dias 5 e 8 de Abril, e à qual tivemos o privilégio de estar associados enquanto parceiro oficial.

Na conferência de há 3 anos, realizada em Lagos em Abril de 2016, já tínhamos  tido a oportunidade de assistir a uma palestra de Olivier Filippi sobre uma visão que é revolucionária, mas possível, para novos jardins e espaços públicos, mais vibrantes, sem relvados nem sistemas de regra, com flora autóctone, sustentáveis e ecologicamente diversos.

E esta conferência foi mais uma oportunidade para ver e ouvir o que, um pouco por todo o Mediterrâneo, está a ser feito com sucesso ao longo dos últimos anos  por diferentes arquitectos paisagistas,. Pela boca de Olivier Filippi (http://www.jardin-sec.com/) e pela de Helen e James Basson ( http://www.scapedesign.com) que, a partir do Sul de França, se inspiram nas paisagens mediterrânicas para construir experiências de fruição mais sofisticadas e exigentes.

Porém, se alguns dos que lêem estas linhas, pensam que a "jardinagem" se resume a uma matéria de estética restrita e fútil, desenganem-se! Com efeito, se numa perspectiva restrita um jardim sem dispendiosos sistemas de regra já é tema suficientemente importante e vasto, o FACTO é que a JARDINAGEM, como pode e deve ser entendida, é MUITO MAIS DO QUE ISSO!

Tomando como nossas as palavras de Burford Hurry, presidente da Mediterranean - Gardeners Portugal, resumimos a importância do tema: NÓS PRECISAMOS DOS JARDINS E DAS PLANTAS PARA CONTINUARMOS HUMANOS!

E PRECISAMOS MESMO! Em tempos cada vez mais cibernéticos e onde a hiper-especialização é a palavra de ordem que é imposta a seres que durante 30.000 anos prosperaram por serem generalistas, A JARDINAGEM pode ser a experiência TOTAL de todos aqueles que acreditam que só há uma maneira de continuar humano: A de insistir, afastar a sombra e persistir na certeza de que o nosso lado mais luminoso pode sempre crescer. Um work in progress que nunca termina e que todos os dias reclama por ESPAÇO!

E HÁ TANTO ESPAÇO! Os quatro dias da conferência de Évora foram um exemplo disso e da experiência total que os jardins podem proporcionar sendo o seu fio condutor e estrutural!

Uma Experiência TOTAL que juntou pessoas provenientes da Austrália, África do Sul, América, SUL e Norte, de Portugal e de outros países europeus. Para ver Monsaraz e o maior lago da Europa. Para duvidar do seu sentido e se isso é mesmo motivo de orgulho, e duvidar também se as cultura hiper-intensivas e irrigadas de amêndoal e olvial em redor de Évora serão efectivamente estratégia ou simples depradação da terra.

Para nos inspirarmos, pela mão da Prof. Aurora Carapinha da Universidade de Évora, nos jardins históricos da Quinta do General, Borba, ou nos emocionarmos pela sofisticação alcançada no Convento de S. Paulo da Serra da Ossa, Redondo. Sofisticação que infelizmente não impediu a transformação daquela Serra num imenso eucaliptal. Para vermos um exemplo do sistema mais eficiente de gestão de recursos naturais do mundo que o Homem persistiu em desenvolver e estimar ao longo de séculos - O MONTADO - na quinta da Maroteira, Redondo.

Para ouvir a a Professora Ana Margarida Fonseca sobre as dezenas de alimentos silvestres que em épocas de sobrevivência do século XX alimentaram os generalistas alentejanos a partir dessa mesma paisagem sustentável.

Para tentarmos perceber como uma da áreas consistentemente habitadas no fulgurante período megalítico de há 6 mil anos, que construiu menires, antas e o inigualável cromeleque dos Almendres, tem hoje uma das mais baixas densidades populacionais do mundo (22 habitantes/Km, que comparam com 1.163 no Bangladesh).

Para vermos os planos de revitalização do Jardim Botânico do Porto dirigido pelo Prof. Paulo Farinha Marques fazendo um uso crescente da flora nativa de Portugal. E para aprendermos com Paula Maria Simões e Marilyn Ribeiro as melhores práticas quando decidimos ter um jardim vivo e não um sistema de irrigação.

Mas também para ver um sonho improvável concretizado na Vidigueira: A QUETZAL, uma vinha/Adega que é um centro de arte moderna de excelente qualidade. E que muitos rejeitam pela ousadia, como se não se pudesse também sonhar no Alentejo. Como se não compreendessem que o desafio nunca é justificar um NÃO mas arranjar forças para dar forma ao PORQUE NÂO!?!?!

Tal qual como os nossos melhores, de D. João II e os que o rodeavam, fizeram há cerca de 550-600 anos entre Évora, Alcáçovas e Sintra. Que, muito possivelmente entre sebes de murta e fontes de um delicado jardim renascentista - hoje visitável no antigo palácio dos Henriques, não tiveram dúvidas em decidir onde tinham de se concentrar: No E PORQUE NÂO? E PORQUE NÂO, persistir e Progredir pelo mar adentro?

E PORQUE NÂO? Esse será sempre o âmbito maior da Jardinagem! E é por ele que entre 5 e 8 de Abril, humanos provenientes de Inglaterra, bélgica e Holanda, residentes em Portugal, que amam incondicionalmente esta terra que os escolheu há décadas, prepararam com generosidade um programa excepcional para portugueses, australianos, gregos, chilenos, sul-africanos e tantos outros  que moveram as suas energias para estarem uma semana da Primavera de 2019 em Évora. ÈVORA, uma cidade que há muito mais de 40 anos não é só nossa mas da HUMANIDADE, deles e de todos os outros que um dia ainda conseguirão visitá-la!

Nota final e pessoal - Um OBRIGADO muito particular a todos os elementos da Mediterranean Gardeners e em particular ao Rob&Rosie Paddle, responsáveis pela organização deste evento maior dedicado ao tema do "E PORQUE NÂO?". Ou, se preferirem dedicado ao tema de como "Trazer a paisagem mediterrânica para o jardim". São do nosso MELHOR. Tê-los é e será sempre um privilégio nosso e um direito justamente reclamado por esta terra que sabiamente os prendeu cá.  

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Em dias de Halloween, Flores de Mandragora!

Mandrágora em flor, Barlavento algarvio, Outubro 2018

Em dias de Halloween ou, para quem preferir, em noites de bruxas, partilhamos hoje alguns parágrafos sobre uma espécie autóctone desconhecia da maioria de nós,  que se encontra agora em flor e que é, para lá das vulgares abóboras e desde há séculos, uma das espécies míticas da bruxaria ocidental: a Mandrágora, (Mandragora autumnalis) !

Hoje em dia os mais conservadores detêm-se na discussão de que as actuais comemorações "comerciais" de Halloween são uma importação descarada e sem qualquer sentido proveniente dos Estados Unidos. 

Mesmo que assim seja -e nós não estamos assim tão certos, pois sobretudo no centro e norte de Portugal os nossos antepassados Celtas comemoravam a entrada no Inverno e início de um novo ano no  último dia de Outubro com o importante festival Samhain, o nosso Dia 1 de Novembro, dia de todos os santos e do pão-por-Deus na região Centro, de tradição católica, possui alguns aspectos que não o deixam assim tão longe do espírito pagão.

E a ideia principal nestes dias em que a noite avança e ganha terreno aos dias é, no hemisfério Ocidental, a mesma: a de nos conectar com outros mundos menos palpáveis e desconhecidos! Como reconhecido por todos, ninguém acredita em bruxas mas que as há...Há!

E são precisamente as bruxas que deram fama a esta planta considerada mágica e cujas raízes bifurcadas, de aparente forma humana, são um ingrediente essencial em qualquer trabalho que se queira com efeito certo.

Ao que parece as suas qualidades já tinham sido anotadas no Antigo testamento e daí até ao fim da idade média a sua fama só cresceu. São incontáveis as lendas à volta desta planta. Desde que a sua semente é o sémen de um homem enforcado até aos procedimentos de colheita das sua raízes que apenas poderiam ser colhidas em noite de lua cheia, puxadas para fora da terra por uma corda presa a um cão preto; e se outro animal ou pessoa fizesse esta tarefa, a raiz "gritaria" tão alto que o mataria.

À parte estes aspectos da maior importância em noites de interacção com o oculto, o facto é que o seu fruto possui elementos químicos que o tornam venenoso. Daí que os Árabes o apelidassem de maçã do Diabo, pelas supostas características afrodisíacas.

Curiosamente não é o único género da grande família das solanáceas que é suspeita e tem fama de venenosa e tóxica, pois há outros géneros, com espécies provenientes por exemplo da África do Sul, que entretanto se assilvestraram entre nós sendo algumas das quais consideradas até invasoras. Um bom exemplo é a espécie Solanum linnaeanum também vulgarmente conhecida por  Maçã de Sodoma.

Curiosamente também, e sobretudo para os menos atentos a questões botânicas, as solanaceas à qual pertence esta espécie mágica são nada mais nada menos a família dos tomates - um fruto que comemos na categoria dos vegetais e que chegou à Europa no século XVI vindo da América do Sul pela mão dos  espanhóis. Dos tomates e das beringelas, bem como de muitas outros géneros conforme partilhado aqui pelo Dias Com Àrvores.

Não nos alongaremos mais sobre as infinitas curiosidades acerca da planta e dos usos místicos - bastará uma pesquisa no google de expressões como "Mandrágora", "Noite das bruxas" ou "festival Samhain" para se ocuparem facilmente muitas noites de Outono!

Mas não gostaríamos de terminar sem referir que esta é uma espécie autóctone relativamente rara e que deve ser preservada por todos. Àqueles que se pretendem iniciar nas artes da bruxaria com um peso -pesado da arte só podemos garantir uma coisa: As raízes de Mandrágora só podem mesmo ser colhidas "puxadas para fora da terra por uma corda presa a um cão preto. Se outro animal ou pessoa fizer esta tarefa, a raiz "gritará" tão alto que o matará!

Feito o aviso, a nossa sugestão é que quem quiser ter esta planta em flor na altura em que quase todas as outras ou estão a germinar ou a produzir frutos, o melhor mesmo é tentar germiná-la! No nosso catálogo geral temos as suas sementes para todos aqueles que o pretenderem tentar!

Raízes de mandrágora

Frutos de mandrágora

terça-feira, 1 de maio de 2018

Maio: tempo de usufruir e celebrar


A última vez que escrevemos neste blogue foi a propósito do início da Primavera. Passou-se pouco mais de um mês e voltamos hoje para assinalar, neste que é o 1º de Maio, o dia das Maias. Ao longo dos últimos anos e desde 2014 (AQUI) temos partilhado sempre por estas alturas o quanto apreciamos este dia e este mês. 

Se a Primavera começou a 20 de Março, a verdade é que ela não é toda igual. Em bom dizer, não há um dia igual ao outro qualquer que seja a estação do ano:  na Natureza e por todo o lado, tudo faz o seu caminho, feito de mudança permanente, aos poucos e em passos quase imperceptíveis, a transformação é a regra.

Como escrevemos AQUI no ano passado, " Os verde-limão das primeiras folhas  do início da estação foram dando lugar a outras cores e formas de vida num crescendo de exuberância que invade os nossos olhos. É a mesma estação? É. Mas que se foi  transformando todos os dias mais um bocadinho conduzindo-nos suavemente ao tempo de usufruto e de colheita que marca o Verão."

Para os Celtas, o ano só tinha duas estações e o Verão começava neste primeiro dia de Maio com um importante festival  -  Beltane - sendo o nosso Dia das Maias, um testemunho dessa relação ancestral com a Terra e o que nos rodeia. Muitas centenas de anos depois é para nós óbvio que essa constatação continua fazer todo o sentido: Maio é definitivamente o mês mais  glorioso e vibrante que temos!

Esta constatação tem evidentemente um reverso. Maio é tempo de celebração e usufruto do que se semeou noutros anos e que nos recompensa agora com extensas e vibrantes florações. Semear continua a ser possível, mas só deve ser feito em ambientes condicionados, onde seja fácil regar e acompanhar o crescimento de jovens plântulas. Fora disso o mais provável é que qualquer golpe de calor dos muitos dias quentes que teremos pela frente deitem tudo a perder.

Porém e como dizíamos, tudo é "feito de mudança permanente, aos poucos e em passos quase imperceptíveis", pelo que daqui a pouco mais de 6 meses voltaremos ao Tempo de Semear. Até lá temos o tempo de Usufruir e de Colher! E é isso que todos podemos e devemos fazer! 


domingo, 18 de março de 2018

Equinócio de Primavera 2018


Há cinco meses atrás, em pleno Outono, Portugal passava por um dos períodos mais quentes (e trágicos!) de que não tínhamos memória e que, dizem os especialistas, experimentávamos pela primeira vez. Desde então e até há cerca de 3 semanas, grande parte do país esteve em seca severa, motivando as mais diversas iniciativas de quase todos os quadrantes humanos - da ciência à politica, da comunicação social à religião, para que tal desgraça cessasse o quanto antes.

Porém, e apesar de todo o voluntarismo dos últimos 4 meses, foi mesmo a Natureza que, na sua imprevisibilidade, se encarregou de repor a água em falta proporcionando-nos um mês de Março generosamente chuvoso. Uma vez mais, de que não tínhamos memória e que,  dizem os especialistas, experimentamos pela primeira vez. E ou a chuva cessa ou, o mais provável, é estar criado um enormíssimo problema de excesso que irá motivar novos voluntarismos dos quadrantes do costume.

Isto para dizer que o mais sensato seria mesmo aceitarmos de uma vez por todas de que o nosso clima, de tipo mediterrânico, se presta a estas variabilidades. Invernos que podem ser muito chuvosos Primavera adentro e Verões que igualmente se estendem pelo Outono. Alterações climáticas à parte, esta é a nossa matriz e se a tivermos como um dado adquirido, não será necessária tanta estupefacção pelos maus resultados dos erros que cometemos na gestão do nosso território.

Com tanta chuva e frio é natural que a "Primavera" ainda esteja envergonhada e que na terça-feira, pelas 16h15, momento em que se regista o Equinócio de Primavera, tenhamos dificuldade em  reparar nela.  

Porém os sinais, embora tímidos, já estão à vista na floração dos pilriteiros, dos folhados e das urzes. E como não há um dia igual ao outro, aos poucos, a Natureza encarregar-se-á de mostrar que os dias maiores são para aproveitar. Começa agora com os múltiplos tons de verde das novas folhas nas árvores de folha caduca, para, nos meses de Abril e Maio, se desdobrar em múltiplas cores.

Apesar da Primavera ainda ser uma excelente altura para se semear - sobretudo em tabuleiros, vasos ou floreiras, esta é mais uma estação para se usufruir do que se fez nos últimos 6 meses! Quem pensar semear agora os prados que quer ver em flor deve certificar-se de que disporá de água para os regar nos calores de Junho. E quem pensar em deitar directamente na terra sementes de arbustivas terá de estar preparado para o insucesso: As sementes germinam mas não terão tempo de enraízar o que necessitam para sobreviver ao Verão.

E o mesmo serve para as muitas árvores que um pouco por todo o país serão colocadas na quarta-feira, Dia Mundial da Árvore, em múltiplas iniciativas de arborização que, na melhor das hipóteses, serão recordadas como de sensibilização. Em jardins ainda haverá alguma esperança se existir rega à mão, mas nas serras e à merçê do tempo, dificilmente as jovens árvores resistirão a um golpe de calor.

Como já escrevemos várias vezes, e de acordo com as nossas observações, no nosso país, incluindo o arco de clima atlântico do noroeste (Aveiro-Braga-V.do Castelo), o mais prudente é semear no Outono-Primavera, de preferência em tabuleiro ou vasos, e transplantar para os locais definitivos nos meses de Novembro e Dezembro.



segunda-feira, 5 de março de 2018

O Jardim


Há um ano atrás partilhávamos AQUI e AQUI que aquilo que o Salvador Sobral estava a fazer em Kiev era semear e semear em larga escala. Evidentemente que  para muita gente esta coisa de misturar os temas da flora autóctone, da canção e da Eurovisão era excessivo, só possível de entender com alguma (muita) boa vontade! 

Nada que nos detenha e este ano voltamos a associar-nos de alma e coração ao Festival da canção. Mais ainda e com maior pertinência quando a canção vencedora se intitula ... O Jardim! Uma belíssima canção da Isaura e da Cláudia Pascoal a provar, uma vez mais, que  a fecundidade está por todo o lado e se pode revestir de mil e uma formas!

Apesar de as redes sociais de hoje estarem inundadas dos comentários mais odiosos que se possa imaginar, para nós o Festival da canção de ontem, em Guimarães, foi um momento alto de televisão que irá juntar-se ao já extenso cancioneiro popular que integra o nosso património imaterial. As canções, de forma geral honestas e decentes - existiam outras que poderiam perfeitamente ter ganho e até a menos votada não nos envergonharia em nada, os tributos às Doce e a Simone de Oliveira bem como a  actuação final de Luísa Sobral fizeram desta final um momento alto do que é Portugal neste ano de 2018. Que é bom, que é digno e que também é, diga-se sem vergonha, fecundo!


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Baixar os braços


Nesta altura do ano gostaríamos de apenas falar sobre sementeiras,  o que semear e qual a melhor maneira de o fazer. Mas o infortúnio, sem qualquer paralelo, que se abateu este fim-de-semana sobre o nosso país detém-nos uma vez mais. O cenário de destruição de Pedrogão Grande repete-se, supera-se e pulveriza-se. Para nós, considerar que esta tragédia é um cenário que devemos considerar como normal, condenado a repetir-se, e com o qual teremos de aprender a conviver,  é demasiado grave para um país que se pensava soberano. E quando não conseguimos proteger e defender sequer a que era possivelmente a melhor e mais bem ordenada floresta do nosso território - O pinhal de Leiria, ardido em 80%, há mesmo uma reflexão profundíssima a fazer com óbvias ilações a retirar. Ou se reconhece que houve incapacidade, uma vez mais,  ou então é evidente que somos um país que simplesmente não pode ter floresta.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Uma Arca de Noé. De sementes Portuguesas.


No passado dia 6 de Outubro, em Braga, o Banco Português de Germoplasma Vegetal, em conjunto com a  ATAHCA - Associação Desenvolvimento das Terras Altas do Homem, Cávado e Ave, assinalou os seus 40 anos promovendo uma conferência Internacional sob o tema “Conservação dos Recursos Genéticos: na Alimentação, nos Sistemas de Produção e nos Bancos de Germoplasma”.

Não obstante estarmos sobretudo focados nas sementes das espécies silvestres para fins ornamentais e paisagísticos, foi para nós um privilégio poder assistir ao conjunto de apresentações e diferentes painéis de oradores que, com enfoques diversos mas complementares, perspectivaram a extrema importância dos nossos recursos genéticos vegetais numa perspectiva da segurança alimentar das gerações futuras.

O Banco Português de Germoplasma Vegetal, integrado hoje no INIAV e localizado em Merelim- Braga, tem uma designação que, temos de reconhecer, assusta a maior parte de nós. É um nome, diríamos, demasiado hermético para designar o que é na realidade e que qualquer um tem facilidade de perceber a importância:

DIriamos antes que é sim uma imensa Arca de Sementes que conserva o essencial das espécies que os nossos agricultores utilizam para produzir os alimentos que consumimos: Os cereais, as leguminosas, as hortícolas, e tantas outras espécies nas suas inúmeras variedades regionais que ao longo dos séculos foram sendo seleccionadas pelos nossos antepassados. É, portanto uma Arca de Noé. De sementes Portuguesas. Que garante que o essencial desse valioso património colectivo é guardado e passado às gerações futuras. Só isso e já é imenso!

Atenção: Não é uma loja de sementes nem disponibiliza sementes a coleccionadores e interessados! A sua missão é simplesmente preservar!

Esta Arca de Noé, iniciada em 1976 pela prof. Renna Farias - uma cidadã brasileira que, tivemos nós essa sorte, dedicou a energia da sua vida a construí-la para nós, e hoje continuada pela Eng. Ana Barata - que, mais não fosse pelo facto de também ser mulher, nos garante que a sua missão de guardar a agro-biodiversidade continua em boas mãos guardiãs. Está entre os mais de 1700 que existem pelo mundo e destaca-se, pela quantidade e diversidade de sementes guardadas, no grupo dos 170 mais importantes, conforme reconheceu a FAO em 2016.

Dos diferentes painéis e oradores, gostaríamos de destacar, cometendo a injustiça de não referenciar muitos outros igualmente relevantes,  a apresentação da Investigadora e professora Dulce Freitas que muito recentemente viu o seu projecto de investigação sobre a introdução das sementes na Península Ibérica ser seleccionado pelo Conselho Europeu para a Investigação (AQUI) E que nos próximos anos irá estudar como se processou,  a partir da Ibéria de meados do século XVIII, a introdução das espécies oriundas dos novos mundos descobertos, revolucionando a alimentação e proporcionaram o crescimento populacional sem precedentes que a partir daí toda a Europa alcançou.

Nota final - Talvez mais subtilmente do que o desejado, este texto pretende também ser uma desenvergonhada homenagem às mulheres que individualmente e no seu todo, em Portugal e em tantos, tantos outros sítios do mundo, chamam a si a tarefa de guardar as sementes para o Futuro. Fecundas como a terra que semeiam são e serão sempre a única terra de onde poderá, um dia, brotar alguma coisa! E é tanto assim e está de tal forma enraízado no nosso sub-consciente, que, enquanto esta missão tiver nome de Banco a cobrir a sua evidente natureza materna, dificilmente alguma vez será compreendido e apreendido à primeira pela maior parte de nós!

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Tempo de semear e recomeçar



Se no último post partilhávamos o que para nós é, sem qualquer dúvida, o que não devíamos estar a fazer - e que na prática é transformar um país que, ao que nos dizem, já foi um jardim, num triste eucaliptal à beira-mar plantado, este será totalmente focado no seu oposto e no enorme espaço que sempre continua a existir para todos os que não pretendem entregar-se ao desalento.

Evidentemente a acção individual não resolverá estruturalmente problemas que carecem de decisões de planeamento do território em maior escala, mas pode fazer toda a diferença. E ainda mais se forem somadas muitas pequenas acções.

O "Homem que plantava árvores", conto de Jean Giono, que partilhámos nesta mesma página no início deste ano de 2017, AQUI,  tem esse potencial de inspiração e esperança que pode preencher qualquer um de nós.

Como escrevíamos na altura " o que é notável e inspirador neste conto de Jean Giono ( 1895-1970) são os diferentes níveis de leitura que ele possibilita. Descrevendo a acção de um pastor solitário que sozinho criou um novo bosque, fervilhante de vida, o que por si só é uma obra maior, o autor remete-nos subtilmente para as infinitas possibilidades da condição humana e que cada um de nós tem, por mais adverso que seja o contexto: O de recomeçar e persistir com esperança na mudança que queremos para cada um de nós e em nosso redor. 

É uma mensagem que se pode ler em todos os momentos do ano, mas que ganha ainda mais relevância nos momentos de recomeço, pelo que não nos cansamos de sugererir  o seu visionamento ou a leitura do livro.

É que Setembro, estando nós hoje a apenas 15 dias do equinócio de Outono, marca o início de um novo ciclo da vida no hemisfério Norte. Muito mais que 1 de Janeiro - o inicio do nosso calendário romano, hoje generalizado no mundo de cultura ocidental, é com o Outono que realmente há a oportunidade de recomeçar, semeando e colocando na terra o que queremos ver crescer e florir na Primavera/Verão de 2018.

Perspectivar o tempo de maneira circular, como faziam os nossos ancestrais pagãos, traz inúmeras vantagens sendo que a maior é mesmo liberta-nos da perspectiva linear dos "crescimentos constantes" a que a sociedade actual considera normal exigir e que não têm qualquer paralelo na Natureza que nos rodeia e da qual fazemos parte. Daí que, se há um regresso às aulas dos mais novos, também pode e deve haver um regresso à terra, ao jardim, à horta, ao bosque ou à floresta de qualquer um que não se resigne e queira recomeçar semeando.

Que o conto de Jean Giono possa inspirar mais alguns dos que nos seguem em novos recomeços, são os nossos votos!



quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A triste e insustentável eucaliptização do Litoral

Agosto de 2017 - margens da Lagoa de Óbidos. O novo eucaliptal,em baixo, contíguo ao bosque mediterrânico, em cima, foi igualmente eaté há bem pouco tempo um frondoso bosque .


Depois de alguns dias na costa vicentina e de regresso ao trabalho, partilhamos hoje, último dia do mês de Agosto, um post sobre um dos temas centrais que marcam irremediavelmente  a actualidade tal foi a violência dos incêndios que em 2 meses reduziram a cinzas vastas áreas do centro do país.

Fazêmo-lo neste último dia de Agosto, que  já tem cheiro de Outono, porque gostaríamos de reservar Setembro para aquilo que ele tem de melhor: preparar a nova época de sementeiras que se aproxima: Outubro e Novembro são os meses em que se decide o que se quer ver ver florir na Primavera de 2018 e para isso contamos acrescentar mais espécies aos nossos catálogos e apresentar novas ideias para quem quiser que este seja, aqui e agora, o momento de semear flora autóctone. Na horta, na varanda, no quintal, no jardim ou, porque não, no bosque que um dia se queira legar.

Porém, à parte os vitais e essenciais aspectos comerciais deste projecto - uma nano-empresa, diríamos, vitais para a sua sobrevivência económica, há questões centrais de cidadania às quais, mesmo visando nós a rentabilidade e o lucro, é impossível ficar indiferente.

E a questão central para nós, como já referimos em momentos anteriores, prende-se com a imperiosa urgência em conseguirmos, enquanto povo, implementarmos politicas de ordenamento florestal e territorial consistentes e com uma visão de futuro sustentável. Não pretendemos esgrimir argumentos - são diversos os especialistas, bem mais capazes do que nós, que nos últimos meses têm apontado as soluções. As quais, de forma alguma, estão acolhidas na reforma florestal, recentemente aprovada e sob-pressão, para descargo de consciências de alguns.

Dessas medidas agora aprovadas, que não conhecemos em profundidade, há todavia um aspecto que, pelo que temos lido nos jornais, nos deixa no mínimo perplexos: A diminuição da área de eucalipto das regiões agora ardidas terá por contrapartida o licenciamento de novas plantações, em progressiva menor área, no litoral do país.

Não percebendo nós muito bem como é que tal será implementado e fiscalizado e não tendo bem presente onde acaba o litoral de um pais com o máximo de 200 Km de largura, não deixa de ser muito estranho o rumo traçado.

Para começar porque não se percebe como serão recuperados os solos já esgotados do interior. Quem irá financiar essa recuperação? Como se faz? Depois porque o dito litoral está já hoje hiper-eucaliptado. Monchique, Lousã, Caramulo, Minho e por ai acima até à Corunha já foram entregues aos métodos associados à espécie. Significará que se irá licenciar a eucaliptização partes do litoral Alentejano (ainda mais)?) da região Oeste(ainda mais)? E como se fará a atribuição desse jackpot que é hoje poder plantar eucaliptos? Todos os proprietários poderão plantar ou só alguns? E se forem só alguns, de que forma serão ressarcidos os restantes que não acederem a essa lotaria???

Será a ideia substituir o Pinhal litoral por um Eucaliptal litoral à semelhança do que foi promovido no Pinhal Interior? `Será desanexar, com a facilidade que todos nós sabemos ser desporto nacional, solos agrícolas das bacias do Lis, do Baixo Mondego e do Baixo Vouga, onde a produtividade ainda é mais estonteante? Não sabemos e desconfiamos que ninguém saiba.

Na região Oeste em particular, onde estamos sedeados e que conhecemos bem, o eucalipto já avançou pelas areias litorais substituindo o pinheiro em muitos povoamentos a norte da Nazaré e até às matas nacionais. Entre Caldas-da-Rainha e Torres Vedras sucedem-se os novos povoamentos os quais  até nas margens da lagoa de Óbidos - um ecossistema que deveria ser reserva natural, no qual se gastam milhões de Euros em dragagens de desassoreamento, outrora povoada de fulgurantes bosques mediterrânicos - se plantam eucaliptos à pressa em pleno mês de Agosto, tal qual como noutras zonas de Leiria conforme relatado pela imprensa local (AQUI), procurando salvaguardar as futuras restrições da lei.

As imagens acima, das margens de um dos braços da Lagoa de Óbidos, dispensam quaisquer descrições tão evidentes são as diferenças de beleza, biodiversidade e respeito pelo solo. A manhosa técnica de arrotear tudo e qualquer arbusto para que só os eucaliptos vinguem, destruindo irremediavelmente a estrutura do solo e para que se a comunicação social exiba provas de que os eucaliptais são limpos pelos zelosos proprietários e logo ardem menos (pudera !) são suficientemente explicitas do que é que está em questão.

A ser executado é para nós óbvio que este é um caminho "mais do mesmo" e que  não acautela uma gestão estratégica do território. Que no futuro acarretará aos vindouros pesadas facturas.

Se na nossa opinião a monocultura de eucalipto deveria ser desde já fortemente limitada, admitimos que não é viável acabar com ela no imediato (embora nos pareça também óbvio que isso acabará por acontecer um dia, seja por obsolescência seja pelas alterações climáticas. E esse é um cenário sobre o qual deveríamos estar a pensar: o que fazer a um imenso território que daqui a algumas décadas vai estar ecologicamente destruído e sem qualquer proveito económico).

Nesta perspectiva, sendo insustentável que todo o litoral seja um imenso eucaliptal, resulta claro que, por uma questão de igualdade de condições de exercício dos proprietários florestais, a cultura do eucalipto só pode ser possível dentro de regras bem definidas e claras que não excluam povoamentos de outras espécies que assegurem uma função ecológica.

Fazer o que nos últimos 100 anos não fizemos, será complexo e demorado. Mas não será por falta de propostas em cima da mesa que não se fará o que tem de ser feito. Das muitas propostas, destacamos duas que nos parecem urgentes e de elementar bom senso:

A constituição de entidades responsáveis por áreas territoriais que, com escala, permitam uma floresta ordenada e com um mosaico de diferentes povoamentos, como defendido por Pedro Bingre do Amaral, é, também no litoral, uma evolução para qual deveremos caminhar o quanto antes. 

Encontrar formas de remuneramos colectivamente os serviços de ecossistema prestados por uma floresta diversificada e bem ordenada , desviando o que se gasta hoje, por exemplo, no combate aos incêndios em acções de prevenção e ordenamento, como defende o Arquitecto Paisagista Henrique Pereira do Santos, parece-nos igualmente outra proposta muito razoável e que permitirá suprir uma falha onde o livre-mercado-iniciativa não funciona e produz resultados que prejudicam a nossa sociedade no seu todo. 

Outras haverá, em diferentes vertentes, desde mentais, jurídicas e operacionais, mas sem estas, ou outras similares com igual alcance, que proporcionem uma efectiva administração do território com a escala necessária, dificilmente estaremos a caminhar no bom sentido.



quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sobral Interior

(vista da aldeia Ferrarias de S. Joao, Penela, onde os sobreiros travaram de forma bem evidente o incêndio de Junho)


Há pouco mais de um mês Pedrogão Grande; há 15 dias nos distritos da Guarda e Vila Real, hoje em Mação, Proença, Oleiros, Nisa, Vila Velha de Rodão. Só um chegaria para arrepiarmos caminho, mas, aparentemente, tudo indica que o país vai ter de continuar a arder por muitos e bons anos até que nós, ou outros que venham a seguir  nós, encarem o problema de frente e ponham mãos à obra que terá de ser feita.

E o que terá de ser feito, como em quase tudo o resto, depende mais de uma visão politica de longo (longuíssimo) prazo do que de estudos científicos parcelares, diplomas legislativos avulsos e entidades da administração publica desconectadas entre si.

Ora, na nossa perspectiva, só há uma visão digna do nome: Ousar de uma vez por todas revolucionar o ordenamento de amplas áreas do nosso território do centro do país e das suas extensões florestais.

Pedro Bingre do Amaral, professor da Escola Agrária de Coimbra, para nós um dos que de forma mais consistente tem reflectido nos problemas da nossa floresta, publicou no seu perfil de FB, AQUI, poucos dias após os incêndios de Pedrogão Grande, a sua leitura do que poderá ser a região agora fustigada pelos incêndios e que para alguns é ainda conhecida como Pinhal Interior. Nas suas palavras poderá ser um grande SOBRAL INTERIOR. Como escrevia: 

"O centro de Portugal pode vir a recobrir-se com dezenas de milhar de hectares de montado de sobro, assim haja vontade política e cívica para isso. As vantagens serão várias: é mais fácil debelar o fogo num montado do que numa floresta densa; o sobreiro recupera melhor após o incêndio que os eucaliptos e os pinheiros; a cortiça é um produto com boa saída nos mercados internacionais, havendo pouca concorrência de outros países; o montado é particularmente favorável à biodiversidade, à cinegética, à produção de cogumelos e espargos, e ao ecoturismo."

Poderá ser um sobral, um cercal, ou um carvalhal, ou um misto de tudo isso e onde até pinheiros e eucaliptos caberão certamente, mas, independentemente, dos contornos de como isso pode ser feito, essa é a única visão de futuro sustentado que esta região precisa.

Ao fim de dois mil anos a desflorestar e 100 a florestar erradamente, seria de Homem um povo assumir o desafio de cuidar da terra que o alimentou durante gerações. E abdicar de vez da mania de que estes pobres solos têm ainda a obrigação, em pleno séc. XXI, de gerar rentabilidades alucinadas, cuja fasquia é marcada de forma distorçida pela indústria da celulose. Rentabilidades que nunca, em momento algum da nossa historia, a floresta teve. 

É empresa para os próximos 100 anos, e como tal pressupõe um amplo consenso na nossa sociedade. A questão, como é evidente, está em saber se alguma vez a conseguiremos por em prática. Se temos a vontade, a energia, a liderança e os recursos para o efeito. 

Muitos dirão que tal é impossível de concretizar. Talvez. Mas sem sonho, sem visão e sem rasgo nunca nada que valesse a pena se fez. São inúmeros os exemplos de sociedades que caminharam para um colapso anunciado porque no seu seio não conseguiram mobilizar as mudanças estruturais que se impunham e estavam à vista de todos. E casos há em que todas as partes seguiram seguras para o abismo, com a desculpa de que estavam a executar na perfeição o papel que lhe estava determinado.

Para nós, e felizmente para muitos outros, esta é a visão que se impõe e para a qual deveríamos mobilizar os nossos recursos económicos, técnicos e científicos. Ao serviço de uma visão de futuro, que é essa a ordem natural das coisas! Pode nao ser agora, mas sê-lo-á de certeza absoluta um dia.

Nem que seja daqui a alguns anos, depois de a industria da celulose colapsar por obsolescência!


terça-feira, 20 de junho de 2017

Solstício de Verão 2017


Costumamos e gostamos de assinalar equinócios e solstícios. O de Verão, particularmente, por ser o início da estação que geralmente associamos aos dias longos e às férias. Por ser época de santos populares, festas e romarias. Para nós ainda, por ser a época de colheitas e por, apesar de ser a época mais seca, ainda se vislumbrarem aqui e ali muitas das flores silvestres às quais atribuímos valor, seja ele ornamental ou outro.

Este ano porém, o solstício, que ocorrerá esta madrugada pelas 5h24m, de acordo com o AOL, será marcado pelos muitos fogos que ainda lavram na região centro do país  e que, numa dimensão trágica inimaginável, conduziram à morte 64 pessoas.

Não poderá ser um solstício de celebração e será seguramente e para sempre um dos Verões de pior memória para nós. Lembrar os que perderam a vida em Pedrogão Grande este Verão será a imagem que nos vai acompanhar nos próximos 3 meses.

Mas se não há nada que os possa trazer de volta à vida, que a sua trágica morte possa motivar o sobressalto que todos nós, enquanto sociedade, lhes devemos para que tragédias idênticas não se repitam.

Um sobressalto que nos faça perceber de uma vez por todas que, longe de sermos os melhores dos melhores, falhamos muito e em muita coisa enquanto povo. E em toda a linha em matéria de ordenamento e gestão do nosso território, onde devemos competir nos últimos lugares da tabela com o Haiti ou a ilha da Páscoa.

Aqui chegados dispensamos-nos a juntar mais bitaites sobre o diagnóstico. Pelo menos desde 2003, ano em que ardeu Oleiros, que as causas profundas estão identificadas pelos mais diversos especialistas. O prof. Jorge Paiva, O  Arq. Ribeiro Teles, o Prof. Nuno Gomes da Silva, Luís Alves, Pedro Bingre do Amaral e tantos, tantos  outros,  já explicaram de forma detalhada que o nosso território não suporta as extensões de monoculturas de eucalipto e pinheiro que as fileiras industriais pretendem; Que a solução passa pela constituição de unidades de gestão minimamente dimensionadas que, dotadas de recursos e capacidade efectiva de acção, promovam povoamentos  mistos com outras espécies, nomeadamente autóctones; que, se necessário for, o Estado deverá expropriar amplas parcelas de território.

Embora nem tudo se possa assacar ao Estado - quantos de nós, que nos emocionamos no conforto dos nossos sofás, não tem uma parcela de terra ao abandono!? - É a este que, no conjunto das lideranças politicas e da administração pública, cabe a responsabilidade de gerir o território e os diferentes actores que nele se movimentam, nomeadamente: industrias, populações e autarquias.

E foi aí que o nosso Estado, lideres políticos eleitos+administração pública, central e local, falhou total e redondamente nos últimos 40 anos. Não são necessárias demissões deste governo em particular, porque todos os anteriores foram incompetentes. Mas também não podemos aceitar que hoje apenas se nos ofereçam de mão vazias, voz embargada, olhos húmidos e desorientados para daqui a menos de dois meses rejubilarem de alegria a abraçar despudoradamente turistas nas praias do Algarve.

Porém, quando morrem estupidamente 64 cidadãos, não é mais possível continuar a empurrar com a barriga e a assobiar para o lado. Nem insistir em fórmulas e estruturas que já provaram não serem capazes. O que precisamos de saber é tão simples como o que é que de novo se está disposto a fazer para repensar seriamente o ordenamento do território e da nossa floresta. Sem hipocrisias. Se for mais do mesmo dos últimos 15 anos, mais livros brancos, mais prós e contras da Fatima Campos Ferreira, para, depois, no fresquinho dos gabinetes de Lisboa, se concentrarem em mais medidas de apoio à produtividade da fileira de celulose e contratos milionários para o combate às chamas, o melhor será mesmo assumirem de uma vez por todas a sua incapacidade e que amplas áreas do país estão subtraídas à nossa soberania e concessionadas à lei da indústria mais forte.

E, se for esse o caso, se for impossível, se a República não tem nem o dinheiro nem a capacidade, a única coisa que nos restará fazer, se pretendemos manter ainda alguma dignidade, será então evacuar permanentemente as poucas populações que por lá ainda agonizam. Dar-lhe novas oportunidades de vida digna no litoral e, por misericórdia, evitar que morram carbonizadas.

E as televisões portuguesas que descubram outros espectáculos degradantes para entreter as massas. Nem imaginação, nem drones lhes faltam,  tantas são as vezes que por estes dias tanto nos têm lembrado até à náusea os filmes "Jogos da Fome",  provando que também aqui a realidade ultrapassa com muita facilidade e largamente a ficção.


domingo, 18 de junho de 2017

Homicídio por negligência


43 mortos até ao momento. Dezenas de feridos. O que aconteceu ontem no norte do Distrito de Leiria não necessita de condolências nem de afectos de compaixão dos nosso decisores políticos. Necessita isso sim de tomadas sérias de decisão que de uma vez por toda compreendam que sem gestão do território não será possível evitar esta e outras catástrofes vindouras.

Quem permitiu que todas aquelas serras, terras de carvalhos e castanheiros e de ribeiras fosse entregue ás monoculturas de eucaliptos e pinheiros, de ambos os lados de toda qualquer via de comunicação, num continuo de matéria altamente inflamável, é na realidade culpado por homicídio. Pode ser por negligência, pode ser por incúria e até nunca ser confrontado com isso, mas em consciência sabe que é isso que se trata!

E não venham os especialistas doutorados nos EUA dizer que tudo o que necessitamos é fazer uma sábia e inteligente gestão do fogo! Não caríssimos professores doutores. É necessário de uma vez por todas impor regras tão simples como: Em cada Km2 o limite afectável às monoculturas não pode ultrapassar os 20%. Ou, por cada eucalipto ou pinheiro plantado têm de estar identificados onde serão plantados 9 carvalhos ou outras folhosas.

Sem que isto se faça, é continuar a morrer. Uns assados, outros de vergonha!

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Tempo de celebrar e usufruir!


Qualquer mês de Maio é, por si só, um tempo de celebração! O primeiro mês do calendário celta tem sempre essa virtuosidade e por muito que nos tenhamos urbanizado, é da maior vantagem dar conta da natureza cíclica de tudo o que nos rodeia. Há um tempo para semear, outro para descansar, mas também para celebrar com gratidão a generosidade da vida de que temos o privilégio de fazer parte.

O dia das Maias é um dia de celebração, como o é o dia da Espiga que assinalámos antecipadamente no dia 7 deste mês na Herdade do Freixo do Meio. 

Importa-nos também constatar que não há só uma Primavera e que desde que ela se iniciou há quase dois meses, todos os dias tivemos uma primavera diferente. A de meados de Maio não é a mesma da meados de Março. Os verde-limão das primeiras folhas forma dando lugar a outras cores e formas de vida num crescendo de exuberância que invade os nossos olhos. É a mesma estação? É. Mas que se foi  transformando todos os dias mais um bocadinho conduzindo-nos suavemente ao tempo de usufruto e de colheita que marca o Verão.

E esta é a razão essencial para assinalar com novas cores os próximos meses que temos pela frente. Não serão tempos de semear  e até que voltem a estar reunidas as condições, lá para o fim de Setembro, daqui a 3 meses, procuraremos sobretudo partilhar as mil e uma maneiras de como é possível usufruir estes meses  preparando outros.

Claro que referenciar isto quase que chega a ser excessivo para quem já tanto celebrou com a vitória na Eurovisão, um privilégio não aconselhado a cardíacos. Porém, sabemos de experiência, que não há (felizmente) euforias eternas e até agora se aconselha algum tempero. "Sermos bons e os melhores dos melhores" sabe bem e reforça-nos a auto-estima mas não nos pode fazer ignorar que fora de portas também há muita coisa boa e ao nível dos melhores dos melhores. È o que tencionamos partilhar ao longo dos próximos dias: O que fora de Portugal também é MUITO BOM e que nos pode  (deve) inspirar!

domingo, 14 de maio de 2017

Ensinar a Europa a sonhar




Em 1990, há cerca de 27 anos!,  perguntavam a Agostinho da Silva o que é que um país como o nosso, pobre e longínquo do centro do continente, poderia dar à Europa e ao Mundo. A angústia era compreensível. Preocupava-nos um futuro já sem um império de 500 anos, tínhamos acabado de aderir à "Europa", casa de onde nunca tínhamos saído, mas que uma ditadura psicopata não só não deixou entrar como insistia em convencer-nos de que nem tão pouco lhe pertenceríamos.

Nada que atrapalhasse Agostinho da Silva. Achava não só muito bem que tivéssemos entrado na CEE -  os portugueses precisavam de redescobrir a Europa, mas sobretudo a Europa precisava de descobrir Portugal! O que lhes tínhamos para dar, à Europa e ao Mundo, era muito mais importante do que imaginávamos! Nós PRECISÁVAMOS de os ensinar a sonhar!

Isto dito assim em 1990 era pura patetice! Ontem, os irmãos Sobral, cumpriram-se e cumpriram-nos. E enquanto celebramos numa justificada e merecida euforia sem precedentes, Agostinho da Silva, a existir, estará certamente a sorrir.

O que aconteceu ontem não é explicável pela física convencional. Poder-se-á pensar que foi uma enorme colheita que coroou 50 anos de participações de dezenas de intérpretes, poetas e compositores que nunca cederam e que cantaram sempre em Português, alguns dos nossos mais belos poemas, Simone de Oliveira, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, Carlos Mendes, Ary dos Santos, Carlos Paião, Sara Tavares e tantos tantos outros que semearam, semearam e voltaram a semear para que ontem pudéssemos, ao fim de 49 anos, colher frutos.

Porém, trazer o caneco não foi só uma bela colheita que resgatou todas as nossas participações anteriores,  foi, como dizíamos no nosso último post, semear e semear em larga escala! Mas ainda conseguiu ser mais do que isso: Foi ensinar-nos a sonhar!

E quando se semeia, colhe e sonha desta maneira, tem de se entrar no domínio da física quântica para começar a descortinar um pouco o que Agostinho da Silva nos queria dizer há 30 anos!


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Semear em larga escala


Há mil e uma maneiras de semear, à mão, de avião, com máquinas, muito depressa ou mais devagar, assim e assado.... Mas o que os irmãos Sobral fizeram terça-feira e vão voltar a fazer amanhã em Kiev é simplesmente uma das maiores sementeiras em larga escala que se pode ambicionar fazer em Português! Isto sim é semear com a mais avançada tecnologia. Ao seu lado, as estepes cerealíferas da Ucrânia não passam de agricultura de subsistência! Até porque, como escrevia Natália Correia: "Ó subalimentados do sonho! a poesia é para comer."

Que isto seja evidente para todos os que nos seguem fora de Portugal e que poderão votar amanhã no festival da Eurovisão!